quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O NOVELO DO SAMELO




O gato Samelo
Brinca com o novelo
Corre atrás dele num atropelo
Mas vem o ministro
Com um ar sinistro
Sobe o imposto
Para nosso desgosto
E aumenta o novelo
O gato Samelo
Não desiste, insiste
Persegue o novelo
Chega a Justiça
Toda roliça
Bem arreada
Na falsa fachada
E aumenta o novelo
Vida difícil para o Samelo
Eis o jet set
Gente fina e queque
Cheia de azia
Da mamoplastia
E põe o novelo
Do tamanho do Samelo
Que não conhece fermento
Para tanto aumento
Mas eriça o pêlo
E resiste ao flagelo
Cai o empresário
Que era milionário
Agora é insolvente
Com um carro potente
E aumenta o novelo
Fá-lo maior do que o Samelo
E este que é gato, não é camelo
Foge lesto do pesadelo
Chega o asqueroso
Todo vaidoso
Rouba à vontade
Sem piedade
Cresce tanto o novelo
Que vira tortumelo
Corre louco o Samelo
Para salvar a vidinha
Mas na correria parte o vaso à vizinha
Fugiu do novelo
Mas levou com o chinelo
Antes assim, foi por um pêlo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TWINS

Gémeos. Tão parecidos e tão diferentes. Ao longe quase não se distinguiam. Ao perto percebia-se o que os separava. O mais velho, vinte minutos mais velho, era extrovertido, brincalhão, gostava do Sol e das estrelas. Principalmente das de cinema. O mais novo, vinte minutos mais novo, era tímido, gostava de ler e sobretudo de aprender. Gostava da escola. O mais velho não lhe compreendia os gostos mas achava graça. Chamava-lhe doutor. Um dia a mãe irritada perguntou pelos trabalhos de casa. Feitos os do mais novo. Por fazer os do mais velho. Preferia o Macgyver, o Star Trek e, claro, os castigos da mãe. Assim foram pela vida: O mais novo estudando de dia; o mais velho estudando a noite. Por vezes cruzavam-se ao romper da aurora. Um chegava de mais uma noitada. O outro saía para mais um exame. No abraço que davam percebia-se que as diferenças não os separavam. Eram o mesmo sangue. O mais novo foi para a Faculdade, fez um mestrado, tirou um MBA, sempre com distinção. O mais velho continuou na noite. Hoje é um empresário de sucesso com várias casas de copos na baixa da cidade. O mais novo é caixa num Banco há quase 3 anos. Tem boas hipótese de passar a efectivo. Vamos lá ver.

domingo, 23 de janeiro de 2011

PEÕES

Crispou as mãos na varanda e fixou os prédios em frente. O dia nascera morto de Sol enterrando ainda mais aquela paisagem de subúrbios. Olhou para dentro. Viu a vida a estilhaçar e não tinha cola para unir os pedaços. Fora despedido pelo senhor golfe como lhe chamavam. Sem razão, a crise. Sentiu saudades das tardes quentes de Primavera, das gaivotas a riscarem o azul do céu. Sentiu saudades dela a seu lado. Se ao menos estivesse ali.
Acordou bem disposto. Olhou o espelho que lhe devolveu a habitual imagem de sucesso. Desceu impecávelmente vestido e entrou no carro. Pediu pressa. O motorista arrancou e o seu pensamento fugiu para os negócios. A crise, a bolsa, os favores mais caros, os custos com o pessoal. O trânsito intenso e os semáforos foram renovando pedidos de pressa a que o motorista correspondia com maior aceleração. Nada o aborrecia mais do que chegar atrasado ao golfe.
A noite tinha trazido todas as respostas de que precisava. Levantou-se decidida a recomeçar. Alindou-se e saiu. Caminhou em direcção a casa dele com a imagem que tantas vezes ele lhe segredou; era a cola da sua vida. Seria a cola da vida de ambos. De repente um potente carro desgovernado galgou o passeio e apagou-lhe a imagem. Do carro saíu o condutor atónito e um homem visívelmente aborrecido.
Pouco depois, a pouca distância dali, um corpo lançava-se de uma qualquer varanda de um qualquer prédio dos subúrbios.
O Sol renasceu no dia seguinte.

sábado, 22 de janeiro de 2011

HI-FI

Não enganava. Os olhos minúsculos por detrás do óculos fundo de garrafa, a boca em forma de bico, as bochechas e o duplo queixo compunham uma expressão de subserviência estudada. A configuração craniana, a fazer lembrar um melão e a voz nasalada davam o toque final. Era fiel. Cheirava a fiel. Deixava rasto de fiel. Quando se dirigia ao chefe até os colarinhos se lhe enrolavam. Quando não se dirigia rondava-o pronto a satisfazer-lhe qualquer solicitude. Na ausência do chefe entregava-se aos prazeres da mão no queixo e da navegação internauta. À sua chegada controlava o mecanismo da sudação para fazer aparecer gotículas no rosto. Ajudavam a maquilhar um ar esforçado de trabalho. Quando o chefe estava de costas descansava as vistas na contemplação do infinito. Quando o chefe se voltava já martelava vigorosamente o teclado com as mangas da camisa arregaçadas em desalinho. 
Na rua caminhava tão perto do chefe que se confundia com a sua sombra. À voz do chefe salivava. Não tinha cauda. Se a tivesse abaná-la-ia excitado. Um dia o chefe lançou um osso e gritou-lhe: - Vai! Ele foi. Correu desalmadamente. O osso era de plástico mas não interessava. Tinha ido. Quando voltou o chefe trocara-o por outro fiel. " Já fostes!".

PORTUGAL EM POSTAL

O Polícia não policia
O Juíz não julga, adia
O médico não aparece
Ai de alguém se adoece
O professor deixa andar
Há cursos para comprar
A funcionária mete baixa
Dependura-se na caixa
O jovem não sai da cama
Habituado cedo à mama
Mas mantém-se bem nutrido
Com o rendimento garantido
Enquanto os velhos doentes
São deixados pelos parentes
Anda vaidoso o patrão
Porque tem sempre razão
Na directa proporção
Do poder e do bastão
Nada vende o vendedor
Não produz o lavrador
Não tem barco o pescador
No meio de tanta asneira
Engorda a gasolineira
E também o chico esperto
À custa do amigo certo
É neste triste cenário
Que o governo mercenário
Diz que a crise pula e avança
e lhe ataca a finança
Mas por loucos desatinos
Comprou dois submarinos
E fez mais uma auto-estrada
Para aumentar a trapalhada
Agora não tem dinheiro
Nem para o amigo empreiteiro
Lança o peão rapa e tira
Sempre com o povo na mira

Eu não sou inteligente
Nem tenho o dom do Aleixo
Mas na cabeça da gente
Está o mal de que me queixo

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

APONTAR É FEIO

O nervoso secava-lhe a garganta e colava-lhe a língua ao céu da boca. Era por ali que tinham de sair as palavras, estruturadas, fluentes e isso ainda mais o angustiava. O aperto no estômago encolhia-o na direcção dos sapatos. Tinha de iniciar a palestra e não sabia por onde. Era imensa a escuridão. Apelou a todos os Santos que conhecia para o iluminarem. Não se sabe se por intervenção dos invocados ou se por mero acaso lembrou-se; meteu sôfregamente a mão no bolso, procurou e lá estava. Trouxe-o para a luz do dia. Uma estúpida dúvida sobre se tinha pilhas foi logo desfeita pela pressão do botão ON. Magnífico! O ponteiro luminoso que recebera como prenda de anos acendera. Com ele passou a ter uma luz ao fundo do túnel. Com ele podia falar do que não sabia que o ponteiro encarregava-se do resto. Com ele podia até apresentar o boletim metereológico. Vou ver se chove.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Levantou-se depois da hora
Com o sono urinou por fora
Ensaboou-se, faltou a água 
Limpou-se à própria mágoa
Calçou um sapato de cada cor
Não apertou um atacador
Guardou a carteira no casaco
Mas o bolso tinha um buraco 
O carro pegou de empurrão.
Mais uma consumição.
Foi logo abaixo a seguir.
O que estaria ainda para vir!
Foi a pé, tropeçou no atacador
Caiu no chão, sentiu dor
Pediu ajuda a Cristo
que mal fizera para merecer isto!
Do céu veio um sinal feio
Uma gaivota acertou-lhe em cheio
Chegou outra vez atrasado
Com o azar de braço dado
Aturou o chefe Mota
Que não tirava os olhos da caca da gaivota
De tanto calvário enfrentar
Não se conseguiu concentrar
Trocou nomes, números, moradas,
E fez outras trapalhadas 
No fim do dia aziago
Sentiu-se muito agoniado
Mas ainda aguentaria
Ir à tabacaria
Preencher o euromilhões
Alimentar ilusões
Procurar enfim a sorte

Que fugia do seu Norte
Mas a chave não era aquela
E veio outra vez a gaivota e acertou-lhe na lapela