sexta-feira, 30 de abril de 2021

A GRANDEZA DA PEQUENEZ

 


- Temos a maior ponte pedonal do mundo, pá!

- Espectáculo, pá

- Já tinhamos a maior omelete do mundo, pá

- E a maior feijoada do mundo, pá

- E o maior número de horas a tocar bateria do mundo, pá

- E a maior distância percorrida em cadeira de rodas do mundo, pá

- E vamos bem lançados para termos o maior número de insultos e de lapadas futebolísticas do mundo, pá

- Somos os maiores, pá

- Ah, pois somos, pá

- É por isso que eu sou um grande patriota, pá

- Também eu, pá

- Viva Portugal, pá!

- Viva, pá!

- Olha lá, agora só temos de falsificar as moradas a fazer de conta que vivemos em Arouca para podermos andar de borla na ponte, pá

- E falamos com quem, pá?

- Com o gajo que nos meteu à frente de todos na fila das vacinas, pá

- Ou então falamos com o gajo que nos fez a inspecção dos carros sem lá termos ido, pá

- Ou com aquele que nos reconstruiu as casas em Pedrógão que não arderam, pá

- Boa malha, pá

- Viva Portugal, pá!

- Viva, pá!

domingo, 25 de abril de 2021

DAS FRACAS REZA A HISTÓRIA

 


Sabia que a Natureza não a bafejara. Era como se uma qualquer ordem divina, do universo ou de coisa nenhuma a tivesse condenado a um destino infeliz para que outras sobressaíssem. E não perdiam tempo, essas convencidas, a zurzir-lhe a fraqueza. Elogios, galanteios e louvores seguiam para elas que, a si, estava reservado o desprezo e o esquecimento. O peso dos anos foi-lhe definhando as pernas, mirrando as costas, roendo os nós mais fundos. Mas também foi esse peso que lhe fortaleceu a vontade da revolta. Queria ganhar ao destino nem que essa vitória fosse o último dos seus gestos. Haveria de alcançar a glória pela força da sua fraqueza. 

Foi num dia de Verão. Viu as outras ocupadas, permaneceu junto à janela com o sol a disfarçar-lhe as maleitas e esperou. Ele entrou de rosto fechado. Os passos austeros das suas botas encaminharam-se na sua direcção. Pegou nela sem sequer a olhar, ajeitou-a a seu modo e depositou-lhe toda a carga do seu corpo. Ela nem rangeu. Desconjuntou-se, partiu-se e, no seu sacrifício, libertou o país de um ditador. Não ficaria na História por fazer uma revolução mas o mérito de ter dado o primeiro passo já ninguém lho poderia tirar.


Abri a minha janela

E voei pela cidade

Com um cravo de aguarela

A pintar a liberdade

quinta-feira, 15 de abril de 2021

CANÇÃO DA MÃEZINHA

 


Esse seu cofre antigo tão bonito

Essas suas notas tão belas

Heranças suas são guito

E eu ajeito-me bem com elas


Você é o ser mais verdadeiro

E eu sou o seu filho pródigo

Como nunca fui interesseiro

Do cofre só quero o código


Minha querida, minha velha, minha amiga

sábado, 10 de abril de 2021

DURA LEX CEDE LEX



- Tou litos, sou eu, o fininho. Tás a ver como correu bem. Eu bem te disse que era uma questão de juíz, pá. Queres saber uma boa? Ele achou que tu me corrompeste. O quê? Eu é que te corrompi? Deixa lá que isso já não interessa nada. Como foi há muito tempo tamos safos, pá. E o branqueamento? Ora bem, o branqueamento podes fazer em qualquer dentista. Ai tás a falar do branqueamento de capitais? Não te preocupes que arrasta-se isso até entregarmos a alma ao criador. Olha lá, viste-me na televisão a fazer o papel de vítima? Tive impecável, não tive? Às tantas até sou menino para escrever outro livro. Para quê? Então, para fingir que limpo a honra, pá. O quê? Ainda tens dois armazéns cheios com os outros livros? Não há problema, aluga-se mais um que eu pago com o teu dinheiro da Suíça. Confessa lá que agora até já te cabe um feijão no cu. Cabe ou não cabe, hã? Escuta, preciso que me tragas mais dinheiro. Como? Tenho que disfarçar? Não, pá, já podemos dizer dinheiro à vontade que os gajos sabem que "documentos" e "fotocópias" era a gente a falar de guito. Traz-me muito que quero comemorar à grande, ok? Onde é que tou? Tou na Ericeira, pá. O quê? Não, não tou em minha casa, quero dizer, na casa do meu primo, tou na fila para a esplanada. Mas olha, vem depressa que hoje é sábado e a esplanada prescreve às 13, pá.