sexta-feira, 30 de novembro de 2018

CRISTAL NÃO, SUPERBOCK


Exmo sr dr moreira,

Tenho uma casinha de prostituição. Podia dizer-lhe que é de cuidados continuados mas, para mim, a franqueza acima de tudo.
Sonho com a internacionalização do meu negócio e tenho investido nele com tal denodo, que nem tempo me sobra para outras actividades de que estou investido. Dirijo-me a v exa para lhe propor uma parceria público - privada que, estou em crer, muito contribuiria para projectar o nome da cidade e da minha casinha além fronteiras. Teve v exa o fino gosto de escolher "superbock" para futuro nome do palácio de cristal. Permita que ao bom gosto de v exa junte o meu e o dito palácio passe a denominar-se "gajas e superbock". Tendo em conta a conta em que nos têm os europeus do norte, julgo tratar-se de nome adequado à captação de tão atractivo segmento de turismo.
Mereça a minha proposta acolhimento e poderá v exa contactar-me directamente ou, na minha ausência, através da minha técnica informática emília, que é como se fosse eu.

A bem da nação.
Joseca silvano

sábado, 24 de novembro de 2018

NEGRA FRIDAY


Corram todos a comprar
Que há preços de ocasião
Não se deixem atrasar
Não se esqueçam do cartão

Há bons beijos e abraços
Feitos para a fotogenia
Na compra de quinze maços
Oferecem a TV guia

Há senhas intransmissíveis
Que se transmitem sem querer
A preços tão imbatíveis
Que vão todas as que houver

Há subornos e favores
Mentiras por todo o lado
Praxes feitas por doutores
A preços que é quase dado

Há sucessos grandiosos
Que duram só um instante
Mas têm descontos jeitosos
E dão um efeito brilhante

Há riquezas e vaidades
Não as ter é desumano
Comprem grandes quantidades
Que só se paga para o ano

Não digam que não avisei
É uma negra friday

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Ò MILA, OLHÁS CUECAS


Há de todos os feitios
Tecidos, cores e tamanhos
Usam gordos e esguios
Usam finos e tacanhos

Há quem não lave amiúde
Ou quem tenha desmazelo
Quem as vista cor de crude
Ou quem as use com selo

Há umas que são baratas
Mas para além das comichões
Causam outras malapatas
E apertam os joelhos

Há as de fio dental
Quem as usa vê-se grego
Dão aquele ar sensual
Mas metem-se muito no rego

Há quem goste do tarzan
E prefira a bela tanga
Solução melhor não há
Para quem quer soltar a franga

Há quem peça com carinho
- Mete-mas, ò meu amor
E se a mulher é do Minho
Fá-lo bem e sem favor

E para forrar a algibeira
Ou por ser um mandrião
Há quem viva a vida inteira
Com elas sempre na mão

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

QUE RICA HISTÓRIA


Certo dia, arreava el rei D. Dinis o real calhau no pinhal de Leiria quando, de repente, viu irromper por entre toros queimados a deputada mila. De um salto se pôs em pé, mas puxou os collants com tal desjeito, que entalou um ramo de pinheiro nos reais penduricalhos. Assumida a soberana postura, ainda que com óbvio desconforto, El rei interpelou a deputada:
- Senhora minha, que fazeis por estas paragens?
- Passeio meu senhor, passeio. Respondeu mila.
Desconfiado com o ventre avantajado da mulher, o monarca demandou-lhe:
- Que levais vós em vosso regaço?
- Nada de especial, meu senhor. Insatisfeito El rei tornou:
- Por acaso não transportais uma carrada de moletes disfarçados de rosas para me comerdes a cabeça, não?
- Não, meu senhor. O que levo são passwords. Explicou mila.
- E isso que dizeis, serve para quê? Para tirar disfarçadamente galhos das cuecas? Ironizou o soberano com a secreta esperança de que a resposta pudesse ser afirmativa.
- Não, meu senhor, serve para que alguns não sejam apanhados em cuecas.
El rei pensou que aquilo até lhe poderia ser útil, mas não quis dar parte de fraco. Pensativo, regressou ao castelo montado no seu esbelto alazão. Descaído sobre o lado esquerdo da sela que o ramo de pinheiro se acabara de alojar na zona testicular direita

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

INA DIVERTIDA MENTE


Eis o circo monumental deste lindo Portugal. Convosco o grande silvano, um artista transmontano e sua partenaire mila, minhota muito reguila, num número de aparato que se chama aqui há gato. Silvano sempre elegante no seu fatinho brilhante vai para dentro do canhão, enquanto a mila ofegante, dança toda espampanante e prepara a combustão. Mete bem o fogo à peça e vai silvano depressa para os lados do Marão. Toda a gente o viu voar mas estala a confusão, com a mila a querer teimar que ele está, mas no canhão.
O povo desconfiado com número tão arrojado quis saber qual era a manha. Fez algazarra tamanha que à mila não mais restou que dizer que se enganou. E o grande artista silvano mudou logo de plano. Não quer ser mais bala humana, nem com ponte para a semana

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O RAP DA MILA


Yo, yo, tásse bem

Sou uma rapper popular
Para os amigos sou a mila
Gosto muito de rimar
De preferência com a pila

Que as mulheres do alto Minho
São dadas à convivência
Nem no prédio do coutinho
Há virgens ou inocência

Aproveito para dizer
Que me sinto muito honrada
Faço o que tiver de ser
Em prol da minha bancada

Mas não quero confusão
Com a senha do silvano
Foi para servir a nação
Que a meti por engano

A minha seriedade
Impede-me de fingir
Só sei falar a verdade
Nem que tenha de mentir

Yo, yo, tásse bem

sábado, 10 de novembro de 2018

METE-MA


Impossibilitado que estava de comparecer por motivos inadiáveis, o sr deputado silvano pediu à sra deputada emília que lhe registasse as presenças na AR. O sr deputado silvano ficou depois estupefacto com o alarido causado por conseguir estar em dois locais ao mesmo tempo.
Assiste inteira razão ao sr deputado, pois que de uma situação banal se trata. Vejamos: muitos são aqueles que conseguem estar no pleno exercício da sua actividade profissional e na discoteca abanóku ao mesmo tempo. Muitos são também os que conseguem comparecer numa reunião de objectivos comerciais e no motel kekaboa em simultâneo.
Muitos são ainda os que participam em acções de solidariedade a favor dos pobrezinhos, enquanto ocupam o quarto 27 da pensão da D. Penélope que, não desfazendo, é casinha asseada. Poderão ter de conviver com uma ou outra reclamação familiar, mas jamais terão os microfones da comunicação social a amplificar-lhes a ubiquidade. O sr deputado silvano só porque serve a nação na casa da democracia não é menos do que os outros, pois claro.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

CRÓNICA DA FAMÍLIA


- Boto prédios ao alto! É desta forma que o quim trolha se define e bem assim à profissão. Começou cedo o quim. Entrou para a escola cheio de vontade e saiu com mais vontade ainda. Trocou a segunda classe por servente de segunda e a lapiseira da sacola por um lápis atrás da orelha. Hoje o quim é uma voz respeitada no ramo da construção e todos escutam o seu conselho de mestre:
- Bota-le massa!
A mulher do quim é a sãozinha. A sãozinha é muito achacada a pontadas. Ontem começou-lhe uma num dedo, subiu-lhe pelo braço, desceu-lhe pelas costas e alojou-se-lhe nas cruzes. São um calvário as pontadas. A sãozinha até se candidatou àquele programa de desgraças da fátima lopes. Só está à espera de ter uma trombose ou de ser atropelada para cumprir os critérios mínimos de selecção.
O quim, quando vê a mulher em sofrimento, receita-lhe sempre o mesmo remédio:
- Bota-le aguardente!
O quim e a sãozinha têm um filho que é o litos. O litos é um artista plástico com indubitável vocação para a pintura. O quim acarinhou o talento do filho e pô-lo a pintar desde pequeno. As paredes das obras. Num ápice o miúdo revelou uma firme tendência para a pintura abstracta, até porque não lhe fazia tantos calos nas mãos. Sempre que termina um quadro, o litos tem todo o gosto em mostrá-lo aos pais. A sãozinha gosta de todos, estejam ao alto, de lado ou de costas, já o quim é um crítico exigente. De cada vez que vê um, diz peremptório:
- Bota-o ò lixo!
Há dias o litos apareceu em casa a dizer que era gay. Ao princípio o quim achou bem e até lhe perguntou onde ficava a igreja. Quando o filho lhe explicou que não era religião, o quim pegou nos quadros e enfiou-lhos na cabeça. Várias vezes. O litos até perdeu a cor mas o pai deu-lhe logo uma demão. Sem tinta. A sãozinha, essa teve uma grande pontada que lhe começou na parte de trás de um joelho, subiu-lhe pela perna, passou-lhe pelo rego e enfiou-se-lhe nas costelas. Ficou de todo. Com o remédio do quim, a sãozinha lá melhorou, o litos é que continua empenado. Mas há males que têm bens e o quim aproveitou o empeno para disfarçar. Diz a toda a gente que o filho anda agarrado a uma estrangeira. Não deixa de ter algum fundo de verdade o que diz, que o litos ainda não largou a canadiana.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

CRÓNICA DA AMIZADE



Não as matei todas mas liquidei bastantes. Refiro-me às saudades que sentia do rique e do tone, amigos de infância que não via vai para anos. Foi depois de um café curto, com um cheirinho a progresso vindo das obras de um hostal ao lado, que repescamos as vidas.

O rique está muito bem. Pegou na técnica de dormir com os olhos abertos que tinha desenvolvido em catraio na missa e usou-a para ganhar a vida. Faz de estátua em Santa Catarina. Especializou-se na figura do Adão, com a parra, a maçã e um cachecol em lã besul, quentinho, para não constipar. A profissão é puxada mas o rique nasceu para estar quieto. Passa horas sem bulir um milímetro, nem sequer quando as moedas cantam no penico de esmalte que tem à frente. A semana passada é que precisou de se mexer bastante. Veio um pastor alemão direito a ele, com ar de quem queria trincar mas não a maçã. O rique soltou um guincho, pinchou do caixote e desalmou-se a correr rua abaixo. Só parou na casa das tortas a embutir finos e a agasalhar pastéis de chaves para se recompor. Nem reparou que, na correria, tinha perdido a parra. Não foi pecado mas foi original ver os turistas fazerem fila para tirarem selfies com o Adão integral.

Já o tone subiu a corda a pulso. Começou por falir uma loja dos trezentos, depois faliu uma de tudo a um euro e só não mandou à vida uma de compra-se ouro porque a penhora chegou antes. Ainda andou com uma t shirt a dizer "quer emagrecer, pergunte-me como" mas estava um chibo e o pessoal desconfiou. O negócio foi-se finando até o tone ficar pele e osso. Ao menos fez-lhe efeito. Andava ele desesperado a desfazer-se dos bens de uma tia afastada, quando um cunhado que trabalha na Câmara lhe ajeitou para vender casas. Diz o povo que não há mal que sempre dure e com razão. A tia voltou a ter sossego e o tone passou a ser um exímio consultor imobiliário. Ainda há dias vendeu um apartamento na rua do Almada, pequenino mas muito aconchegante. Só teve de tirar o cão lá de dentro e de dar uma refrescadela às paredes. Tinham muito pêlo agarrado. Os compradores estrangeiros ficaram radiantes. Dormem com os pés de fora, é certo, mas não há problema. Usam carapins. E foi uma pechincha, nem chegou a 150.000 eur. O tone gostou tanto deles que até lhes ofereceu um disco do marante que sacou na vandoma por euro e meio. Assim os estrangeiros têm música tipicamente tripeira no loft dog evolutive. É o nome que o tone deu à casa.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

COMÉ CA DIBINHASTES?


- Hoje levantei-me cos azeites e fui bergar a mola de tromvas. O chefe taba co toco, chamou-me sostra e tebe pa lebar co chuço. Depois beio o senhorio chagar que le ferrei o jeco. Debo-le cinco rendas e o gaijo a arrotar postas de pescada. Mandei-o dar vanho ó com, meti-me no gaiolo e fui de cu tremido encher a mula. Tibe galo, apanhei grizo, fiquei de molho
- O senhor desculpe, é do Porto, não é?
- Eue? Bai no vatalha...

domingo, 4 de novembro de 2018

CRÓNICA DA MEMÓRIA


No tempo em que nasci não havia crianças. Eramos todos homenzinhos e mulherzinhas. Nesse tempo havia um abade na igreja da minha freguesia. Homem imponente, careca enorme, rosto sombrio. A ser representante de deus na terra, como se dizia, deus deveria ser um daqueles homens do saco com que as mães ameaçavam os filhos avessos à sopa. Era dele a missa das 10h, ao domingo, para pavor de todos as mulherzinhas e homenzinhos da catequese da paróquia.

A missa era grande como ele e a homilía pesada como ele. Falava dos anjos, dos santos, do juízo final, enquanto eu pensava nas cuecas que a minha mãe me dera e que apertavam quase tanto como a homilía. A meu lado sentava-se o rique. O rique tinha desenvolvido uma técnica de dormir de olhos abertos que dominava na perfeição. Só se percebia que dormia pelo fio de baba que, a espaços, lhe escorria do lábio inferior. Que inveja tinha eu do rique. A mim e aos outros nada mais restava do que contorcermo-nos disfarçadamente nas cadeiras para aliviar o medo e o tédio que a imponência falante nos causava.

Após a homilía seguiam-se os cânticos. O coro do abade eram os dois sacristãos da igreja. Um baixo, gordo e velho, o outro alto, magro e novo. As diferenças entre ambos aumentavam quando o fervor dos cânticos lhes escancarava as bocas. O mais velho exibia o único dente que se lhe mantivera fiel, o mais novo ostentava duas fileiras deles, tão compridos que lembravam cavalos a relinchar. O timbre das vozes também os separava. O velho soltava graves abafados, alguns dos quais nem chegavam a sair, presos que ficavam no dente estóico. O novo esganiçava agudos como se lhe estivessem a apertar as partes baixas com um alicate de pontas. Era o medo maior que se instalava; o de rir. Eu assistia à actuação com uma expressão seráfica, libertando a pulsão do riso através de convulsões abdominais que a camisola larga dissimulava. Tinha de ser. Lembrava-me bem do que sucedera ao tone; não aguentou e deixou fugir uma gargalhada. Ainda disse deus me salve para fazer de conta que tinha espirrado, mas de nada lhe valeu. O abade parou a missa, chamou-o ao altar e esmagou-o de vergonha perante a igreja apinhada. Aterrado, até imaginei a minha sala de aula na escola primária com a cara vermelha do abade ao centro, ladeada pela cinzenta do salazar e a branca do tomaz. Coitado do tone. Ao regressar ao lugar ainda levou um puxão de orelhas do pai, muito amigo do abade, que lhe metera uma cunha para a irmã ser empregada de escritório.

A comunhão era outro momento difícil. Recebiamos o corpo de cristo em fatias finas, pegajosas, que se colavam ao céu da boca. A tentação de lá ir com o dedo era logo reprimida pelo olhar ameaçador dos catequistas. Tinha uma boa cola o corpo de cristo. Tão boa que, depois da comunhão só o abade falava português. Nós respondiamos com a língua entalada sabe-se lá em que parte do corpo da divindade. O fim da missa não trazia o alívio pois que logo iniciava o ensaio para a comunhão solene. Que o abade acompanhava de perto, pois claro.

No tempo em que nasci não se falava em pedófilia, é um facto. Mas que já se abusava de homenzinhos e de mulherzinhas, lá isso já.







sexta-feira, 2 de novembro de 2018

EUCALIPTIZAÇÃO DE PARQUÍMETROS


Põe aqui, põe acolá
Põe também mais adiante
Põe ali que ali não há
Põe-se tudo num instante

Põe seguido e intercalado
Põe depressa que é urgente
Põe muitos por todo o lado
Põe a pagar toda a gente

Tira árvores e passeios
Enche ruas e avenidas
Põe em quarteirões inteiros
Nas entradas e saídas

Põe da Sé até ao mar
De Campanhã até S. Bento
Que isto assim a parquear
Dá-nos muito rendimento

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

DUARTE LIMPA. O SEBO


Digníssimo sr presidente do Brasil,

É com incontida emoção que o parabenizo por tão retumbante e merecida vitória. Que os ventos da sabedoria, do equilíbrio e da temperança continuem, como até aqui, a soprar de feição para v exa. Gostaria de aproveitar o ensejo e convocar o inigualável bom senso de v exa para o esclarecimento de uma dúvida que, embora diminuta, se mantém pertinente. Daqui para a frente o que acontecerá se, por um infeliz acaso, o honesto cidadão disparar a sua pistola sobre um assaltante? E se por um acaso ainda mais infeliz esse assaltante for do sexo feminino e aparentar, digamos, uma provecta idade? E se por retorcida ironia desse acaso infeliz a bandida for titular de um muito razoável pé de meia? Ficará o honesto cidadão liberto de qualquer libelo acusatório? Seja a resposta de v exa a que espero e creia que inundará de felicidade um amigo que, exímio executante de órgão, tanto gostaria de aí voltar a dar música.