segunda-feira, 1 de abril de 2024
domingo, 29 de outubro de 2023
LUCAS
Sei de um lindo menino
Que pede, pede, sem falar
E ou se atende o pequenino
Ou é menino para chorar
Gosta do leite materno
E logo depois de mamar
Vem um sorriso tão terno
Que é a mim que faz chorar
Mãozinhas procuram o mundo
Curiosas de saber
E há um encanto profundo
Nos seus olhos a crescer
Ele não sabe quem sou
Mas isso é pouco importante
Todo o amor que lhe dou
Não é menor por ser distante
domingo, 3 de setembro de 2023
PERDA
Ama-me como se fosse o pássaro ferido
Que não pode voar
O menino perdido
Que não sabe voltar
Ama-me como se fosse o beijo que sempre quiseste
O calor do abraço que não tiveste
Ama-me como se fosse a brisa suave
Que te acaricia e acalma
Como se fosse a chave
Que te abre a alma
Ama-me como se fosse o pensamento
Que te alivia a dor do tempo
Como a pena que te escreve
Um desejo longo num verso breve
Ama-me como se fosse o olhar que te vê partir
E sabe que não queres ir
Ama-me como se fosse a vida contra a morte
Num instante eterno, redentor
Em que nada mais importe
Do que o amor
segunda-feira, 14 de agosto de 2023
sábado, 5 de agosto de 2023
FERIDAS
Não sei qual o caminho
Não sei qual a direcção
Por onde vou, vou sózinho
Só, com a minha solidão
Vejo flores arrancadas
Vejo sonhos sem raíz
Vejo-me nas coisas passadas
Naquilo que nunca fiz
Há um futuro inventado
No céu que levo comigo
Há um sol inacabado
Que me segue por onde sigo
Peço às palavras que passam
Um momento de infinito
Que me escrevam e que façam
Dos meus silêncios um grito
Sei, conheço de cor
O peso dos meus fracassos
Levo um sorriso de dor
Na fraqueza dos meus passos
E vivo cada momento
No acaso de uma sorte
Nesse compasso do tempo
Nessa certeza da morte
quinta-feira, 3 de agosto de 2023
terça-feira, 27 de junho de 2023
RAÍZES
- Sou o Tarzan e venho na minha liana salvar o meu menino. Era assim que o avô lhe entrava quarto adentro e seguiam-se lutas sem tréguas contra leões enfurecidos, coiotes traiçoeiros, crocodilos sem rio, um sem número de predadores implacáveis. No fim era sempre resgatado às garras e às mandíbulas dos malvados imaginários pelo abraço apertado do avô que lhe enchia o peito de alegria. Era assim o avô, um lutador de ternuras. Aos anos sucederam anos, ao neto menino sucedeu o homem e ao avô sucedeu a perda, das memórias e das forças. Na cama do hospital vagueava o olhar pelo desconhecido, pela distância, pelo vazio da vida. De repente uma voz irrompeu : - Sou o Tarzan e vim na minha liana salvar o meu menino. A seguir o neto deu-lhe um abraço apertado. O rosto do avô manteve-se sem expressão mas uma lágrima deslizou por uma liana já gasta.
domingo, 28 de maio de 2023
A CHAMA IMERSA
As pessoas chegam apressadas, decididas, confiantes e, em menos de nada, o entusiasmo da multidão engole a praça. Bandeiras desfraldadas, punhos erguidos, vozes unidas, gritos de vitória. A força do povo, afinal há tanto por que lutar. Melhor saúde, melhor educação, melhor justiça, contra a exploração do trabalho, contra a corrupção, contra a ditadura do lucro, pela liberdade e pela democracia. Corri para a praça com os olhos iluminados de esperança, deixei-a com os olhos rasos de tristeza. Afinal não passava da comemoração de um agrupamento de milionários que tinham chutado bolas para dentro de balizas, mais vezes do que outros milionários. Ganharam eles, perdemos todos.
NO VERMELHO
- Uí ar de champias mai frein
And uíle quipon faiti tile de én
Uí ar de champias
Uí ar de champias
Nou tai fore lousas
Becoze uí ar the champias ofe de uorle
- Estás a cantar?
- Claro, sou campeão, pá
- És campeão de quê?
- Sou campeão da bola, pá
- E o que ganhaste com isso?
- Ganhar não ganhei, até gastei bastante nas quotas, nos bilhetes, nas camisolas, no canal da tv e a acompanhar a equipa mas agora sou campeão, pá
- E daqui para a frente, o que vais fazer?
- Vou pôr uma bandeira do clube na janela da minha casa, vou meter um autocolante no vidro do meu carro a dizer sou campeão, vou pôr o hino do clube no toque do meu telemóvel e vou dar tanga ó gajo do banco que é do outro clube, pá
- Vais dar tanga ao gajo do banco?
- Sim, quando lá for pá semana renegociar o crédito da casa, do carro e do telemóvel que, ao todo, tenho 38 prestações por pagar, pá
sábado, 20 de maio de 2023
ACTION MAN
- Profissão?
- Risco
- Que tipo de risco?
- Vários. Comecei por ser homem-bala mas por pouco tempo
- Porquê?
- Fazia calos
- Calos?
- Sim, era disparado para longe e quando voltava para receber já não estava lá ninguém
- E depois?
- Depois passei a transportar mobílias mas só à noite
- Trabalhou numa empresa de mudanças?
- Não, fui presidente de câmara
- E depois?
- Depois, dediquei-me a fazer assaltos sem pistola
- Não me diga que foi ladrão?
- Não, fui orçamentista de obras públicas
- E depois?
- Depois passei a entrar em combates diários
- Foi boxeur?
- Não, fui comentador da bola
- E a seguir?
- Fui nadador salvador
- Salvou muita gente?
- Muita gente não, salvei-me a mim
- E como é que se salvou?
- Disse que tinha Alzheimer
- E depois?
- Fui domador de leões
- Nunca foi atacado?
- Nunca
- Que técnica usou?
- Esperei que os leões prescrevessem
- E agora, qual é a sua profissão?
- A mais arriscada de todas
- Qual?
- Sou segurança no ministério das infraestruturas.
domingo, 7 de maio de 2023
LUZ
A noite chega e lança demónios de muitas noites e dias. Há angústias de memórias que me sufocam. Há arrependimentos que se cravam como ferros. Há derrotas que me lançam por terra. Perco forças, esvaio-me em dor. E há uma voz que me resgata à escuridão do medo, me acalma, me diz que está ali. Que há-de estar sempre ali.
E da minha noite nasce um raio de luz chamado mãe.
segunda-feira, 1 de maio de 2023
A ALERGIA DA HIPOCRISIA
Por estes tempos primaveris aproveita a Natureza para se cruzar mas, não é por efeito dessa polinização, que os índices belicosos se constatam elevadíssimos. A comunicação social, por entre lágrimas reptilárias de conveniência, alimenta, explora e radicaliza a guerra. Serve-a empratada à mesa dos restaurantes, polvilhada sobre natas de pastelarias gourmet, em formato de distração nas salas de espera dos consultórios ou em estereofonia nas prisões envidraçadas do trânsito. Tudo devidamente intervalado por perfumes dominadores, por férias em paraísos charters, por pinturas metalizadas de sonhos rolantes ou por créditos para comprar o mundo a taxas de letra miúda. Poderá ser um cruzamento mediático e, de certeza lucrativo, mas jamais servirá à polinização da paz.
MAIO, MADURO MAIO
- Aclarem as gargantas
Vamos cantar com fervor
Celebrar até às tantas
O dia do colaborador
- O que ouvi é uma gralha
Dia do colaborador não
É dia de quem trabalha
Para poder ganhar o pão
- Lá vem este antiquado
Com conversa à camarada
O que quer é um feriado
Para espraiar na vida airada
- Trabalhar é um direito
Colaborar é desdém
Um tamanho desrespeito
Feito por quem lhe convém
- Aqui sou eu que comando
Aos outros cabe obedecer
Ou colaboram como mando
Ou trabalham sem comer
- Não quero colaborar
Com quem explora sem dó
Mas hei-de sempre trabalhar
Para os ver comer o pó
terça-feira, 25 de abril de 2023
sexta-feira, 21 de abril de 2023
REMÉDIO SANTO
Portugal foi sempre um país de heróis. O primeiro foi el rei o afonso que se alcandorou a tal epíteto por ter lutado estoicamente pela independência. É certo que, tempos depois, angolanos, moçambicanos e guineenses lutaram igualmente pela independência mas, esses, de heróis nada tiveram. Ficaram-se pela designação de terroristas ou conforme a gíria de então, eram "turras". Ao el rei o afonso sucederam-se outros virtuosos heróis como o condestável nuno alvares pereira, que conseguiu os 3 pontos na sempre difícil deslocação a Aljubarrota ou o infante henrique que, não obstante as largas e opacas abas do chapéu, foi um visionário que enviou as nossas embarcações em busca de novos mundos para o mundo mas carregadas de desgraçados e de maltrapilhos para, em caso de correr mal, não haver perda de monta. E não se pense que os heróis nacionais se ficaram pelos idos da História. Pelo contrário, Portugal continuou a trazê-los ao mundo em ufana quantidade e qualidade. Lembremo-nos dos nossos bombeiros, esses soldados da paz e, sobretudo, da solidariedade, que cobram 50 eur por viagem para transportarem doentes não urgentes aos hospitais, ou do presidente de um sindicato de enfermeiros que, num acto de inaúdita bravura, permaneceu quase dois dias sem ingerir alimentos, correndo o elevadíssimo risco de sentir fome, ou do almirante gouveia que, trocando galhardamente a sua alva farda marinheira por um camuflado de combate, modelo chuck norris, tamanho XL, se emboscou atrás de uma secretária e dizimou sem piedade um exército de bichos com muitas patas e poucos escrúpulos. Ou acima de todos, o supremo glorificador da alma lusitana, esse expoente máximo das nossas mais exuberantes e esplendorosas vitórias, de seu nome ronaldo, cris para os amigos.
Vem tudo isto a propósito de uma médica, Diana Pereira, que apresentou recentemente uma queixa na polícia judiciária sobre diversos casos de erros/negligência no serviço de cirurgia do hospital de Faro. O director do dito hospital, por detrás da idoneidade que a cor grisalha das suas barbas encena, apressou-se a condenar tal atitude, por não habitual. Logo a seguir a médica foi afastada de funções, rejeitada pelo orientador e por todos os chefes de serviço do hospital.
Que soubesse jogar à bola, que ganhasse fortunas obscenas a marcar golos num clube de futebol de um país defensor intransigente dos direitos humanos e aí sim, poderia aspirar à heroicidade, agora a denunciar colegas por más práticas clínicas pondo em risco a sua habitual inimputabilidade?
Pois que seja engolida pela poeira do esquecimento e acabe os seus dias a fazer pensos numa qualquer espelunca médica de província, que dos fracos não reza a História.
ISENÇÃO NOC(IVA)
Especialista!
Foi a minha resposta quando, em gaiato, me perguntaram o que queria ser assim que chegasse a grande. Nem cuidei de tirar dividendos do espanto que, à data, inculquei em ouvidos adultos, arrebatado que estava a projectar o sucesso da minha futura especialização. Chegado a grande, porém, percebi que me encontrava perante um grande problema; nascera num país onde todos tinham dado, em gaiatos, a mesma resposta que eu dera à dita pergunta.
Num repente vi-me cercado por virologistas, epidemiologistas e almirantistas, demagogistas, enrolamantistas e vigaristas, abusadoristas, obscurantistas e pedofilistas, pénaltistas, fora-de-joguistas e chuteiristas, coscuvilhistas, fazdecontistas e intriguistas, belicistas e natistas, arruaceiristas e moralistas mijaforadopeniquistas.
Sem possibilidade de escolha, agarrei-me às sobras e especializei-me em greves de fome ou, se quiserem, passei a grevefomista.
Após prolongadas investigações cheguei à evidência de que, por cá, as greves de fome não eram demoradas, bem pelo contrário. Ao fim de poucos dias o grevista já degustava suculentos rojões à moda do Minho, acolitados pela consistência fumegante do arroz de sarrabulho, generosos cozidos com todos ou avantajadas dobradas transmontanas.Tudo sequenciado pelas conventuais guloseimas, do pudim abade de priscos à encharcada de ovos e rematado ao final por café 3/4 com cheirinho de vetusta bagaceira para auxilio ao esforço digestivo. Um destes grevistas chegou mesmo a encurtar a duração da luta a menos de um dia, iniciando a greve de fome a seguir ao almoço e terminando-a antes do lanche, a tempo, pois, de aconchegar duas roliças sandes e um copo de espadal fresquinho no incontornável xico dos presuntos, ali para os lados do Heroísmo. E antes do relógio bater o ferro das 17h.
Tão efémera base de estudo obriga-me a enveredar por nova especialização mas, desta feita, por uma que me conceda mais substracto analítico, que é como quem diz, maior tempo de antena. Não é pois de admirar que, a breve trecho, aqui possa retornar para comentar o impacto da recente isenção do iva no custo de vida, mas já na qualidade de especialista em preços ou, se se quiser, como precista. Ou muito me engano ou é especialização para durar por muitas e boas promoções merceeiras.



















