As portas do saloon rangeram e ele entrou. Franziu a testa, semi cerrou os olhos e avançou gingando ao som metálico das esporas. O outro aguardava-o, esbatido pelo fumo espesso da sala suspensa.
- Se tens amor à vida, é bom que respeites esta estrela.
O outro esboçou um sorriso amarelo e provocou:
- Estás a falal dessa polcalia felugenta que tlazes ao dependulo?
As mãos de ambos crisparam-se sobre os revólveres e a sala ficou ainda mais suspensa.
- Se voltas a repetir isso, encho-te de chumbo.
- E tu, se me voltas a ameaçal moldelás a poeila do chão.
- Não tarda, vou dar-te um fato de madeira.
- Antes disso estalás clivado de balas
- Vou mandar-te para os confins do inferno.
- Vê lá se queles um bulaco na tola.
Muito, mas mesmo muito tempo depois, as ameaças sucediam-se a bom ritmo. A sala é que já não estava suspensa. Os presentes foram saindo que era hora da bola. O dono do saloon, saturado, teve um papel nuclear; tirou-lhes as armas e pô-los na rua.
Posso ter cara de dragão de komodo mas creiam que sou um homem com modos. Jamais seria capaz de corromper alguém e muito menos o zé. Aliás, nem o conheço, só sei que foi primeiro-ministro e agora já não é. O zé nal e o granaduxo também não os conheço, sei apenas que estavam numa empresa que acho que se chamava PT e que agora se chama vigarice ou altice, ou lá o que é. Para dizer a verdade, não conheço quase ninguém. Passo muito tempo em casa, porque, com dois salários minimos, não posso sair. Quanto ao resto é uma monstruosidade de que serei ilibado. Lá porque tivemos um Ricardo a defender sem luvas não me podem acusar de ser um Ricardo a atacar com luvas. Agora se me dão licença vou andando que vêm ali uns emigrantes com cara de quem quer lesar alguém.
Então foi escrito por quem? Por quem, porra?
Qualquer dia ainda vão dizer que ando a comprar os meus próprios livros para serem sucessos de vendas! Ou que o património do meu querido amigo Carlos Santos Silva, não é dele, é meu! Ou que não percebi à primeira quando a mãe me disse que estava "depenadinha"! Ou que não sei a diferença entre IRS e IVA! Ou que não sou engenheiro!
Mas que mal deplorável, pá!

Ai que me doi a barriga
De tão penoso o meu pranto
Não há uma frase que diga
Em que não diga portanto
Portanto sai-me sem querer
Portanto não é pensado
Portanto faz-me sofrer
É um portanto malvado
Vivo nesta ditadura
Que portanto me desgosta
Uma cruz portanto dura
Como a de aturar o costa
Não acho nada normal
Padecer desta maleita
Portanto só me quer mal
Portanto é da direita
Sou líder de opinião
Tudo sei e tudo acho
Não tenho comparação
Eu sou grande, embora baixo
Sou isento e rigoroso
Vertical e cavalheiro
Com os amigos sou bondoso
Com os outros sou rasteiro
Comentar é bom sustento
Não dá trabalho nem dor
Agora até já comento
Sobre um ex comentador
E assim vou prosseguir
Mesmo sem discurso novo
O que quero é conseguir
A privatização do povo

Está lá, Perna, daqui é o chefe. Olhe, preciso que me mande papel. Não pá, não é papel para limpar o... , é papel do grande, está a ver? Papel de parede? Não, quero papel do outro. Papel para o IRS? Não, porra! Quero é papel do bom. Papel de inocente? Não pá, esse faço eu! Olhe, quero aquilo de que gosto muito, apontamentos, fotocópias, documentos, papel está a ver? Não tem nada disso, só dinheiro? Ò Perna, você ainda consegue ser mais burro do que os meus primos.