terça-feira, 14 de abril de 2020

AFUNDO PERDIDO


É inadmissível! Os apoios que o governo criou não servem a ninguém e muito menos aos pequenos empresários como eu que só tenho 300 e tal colaboradores. Pago a todos excelentes salários mínimos excepto aos 50 estagiários que trabalham como os outros mas, como é para aprender, não é justo que recebam. Não lhes falto com nada desde que eles cumpram as 12 horinhas de trabalho por dia e elas não fiquem grávidas. Todos os meses elejo o colaborador do mês e para o premiar faço-lhe um discurso cheio de elogios e até lhe dou um abraço forte que ele fica todo contente. De longe a longe chego a perder a cabeça e lá passo um a efectivo. Sou, portanto, um patrão exemplar mas agora que tudo mudou pergunto, como é que vou pagar os salários? Com empréstimos? Nem pensem nisso. Ou vem dinheiro a fundo perdido ou, claro está, não me resta outra solução senão despedir. Ou alguém está à espera que me desfaça do meu porschezito cayenne ou da casinha de férias com piscina que tenho no Algarve, donde vos estou a falar? Era o que faltava.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

É UM ESTANTE...







A ber se nos entendemos, de repente toda a gente manda postas de pescada sobre a vicheza na trebisão e pa fazer de conta que são entendidos aparece com as estantes cheios de livros atrás. Ora eu tamvém quero mandar umas vitaitadas mas, como não tenho mai nada, bou botar na estante a minha colecção da gina, primeira e segunda edições, do weekend sex, até ao número 727, da tânia até ao número 69 e do playboy edição de luxe, que me perpecinaram muitas alegrias na adolescência e, per acaso, nos tempos que correm, boltaram a perpecinar.
Já tenho o skype averto e fico à espera da ligação.

Brigades
Zeca esgana

domingo, 5 de abril de 2020

RAP DAS MÃOZINHAS


Perdi toda a alegria
É tão grande o meu penar
Por causa da pandemia
Tenho de vos afastar

Yo, yo, este corona
Não nos deixa vir à tona

Há um medo que me invade
Nestes dias tão ingratos
Lavo-vos com tal vontade
Pareço pôncio pilatos

Yo, yo, este corona
Não nos deixa vir à tona

Toco aqui e vou lavar
Toco ali e desinfecto
Mas não posso confiar
Não vos posso ter por perto

Yo, yo, este corona
Não nos deixa vir à tona

Lavo o médio e o mindinho
O anelar e o indicador
E o polegar é com carinho
Que esfrego até causar dor

Yo, yo, este corona
Não nos deixa vir à tona

Tanto aprumo na limpeza
Ainda que assim não pareça
Não faz bem, tenho a certeza
Nem à pele nem à cabeça

Yo, yo, este corona
Não nos deixa vir à tona

Vivo preso a esta desdita
Não sei que mal é que fiz
Ai que tortura maldita
A comichão no nariz

Yo, yo, este corona
Não nos deixa vir à tona

A culpa é toda do bicho
Que me cria a obsessão
Olho para vós, vejo lixo
Mais do que na televisão

Yo, yo, este corona
Não nos deixa vir à tona

quinta-feira, 2 de abril de 2020

BENDITA CONTRA A DESDITA


Querido livrinho de recordações conturbadas:

Ora cá estou eu outra vez. Onte aproveitamos a fase da mitigação e saímos para comprar umas coisitas. Já sei que vais dizer que não devíamos ter ido os 5 na furgola mas, sabes livrinho, experimenta enfiar-te nas estantes que se vêem na casa dos comentadores da televisão durante 20 dias seguidos e vais ver como ficas. Segue-se que lá fomos todos contentes até que um senhor agente da autoridade nos mandou parar para perguntar onde era a ida. Antes que ele começasse, acertei uma cotovelada no fígado da mãezinha que quando ele acabou a pergunta já a mãezinha estava a revirar os olhos e a borbulhar pela boca com fartura. Respondemos que a mãezinha estava com um bocadinho de espondilose e íamos levá-la ao hospital. O sr guarda aceitou logo a resposta mas perguntou por que é que o dick se estava a rir. Aí, claro, tivemos de lhe dizer a verdade; respondemos que o nosso cão vê os programinhas todos do sr. fernando rocha e depois passa a vida a lembrar-se das anedotas. O sr agente disse que também era um fiel admirador do sr fernando e até perguntou se sabíamos aquela do automobilista que queria enganar um polícia. Por acaso nenhum de nós sabia tirando o dick que se escangalhou a rir. Quando chegamos ao supermercado estava à pinha porque o dono deixa entrar toda a gente. Há quem diga que é para ganhar quanto pode mas não, é porque que tem bom coração e sabe que o povo anda aflitinho. Bem haja. Segue-se que o meu miro comprou meio boi partido em 4. Ele queria comprar o boizinho inteiro mas eu não deixei porque não cabia na geleira. O meu mirinho, esse comprou 25 grades de cerveja, 45 hambúrgueres congelados e uma passadeira eléctrica para perder peso. Eu aproveitei e comprei tudo o que estava em promoção mas não trouxe nem um rolo de papel higiénico que a gente deve saber dar o exemplo. A mãezinha comprou meia dúzia de pacotes de chá para o fígado. Deve ter sido da cotovelada, não sei. Álcool é que só trouxemos um frasco que, por acaso, estava no carrinho do senhor do lado que começou logo a mandar vir todo aborrecido. Vê-se bem que é daqueles que não gosta de ajudar os outros. Cá para mim deve ser holandês ou assim.
No regresso a casa a mãezinha pôs-se com umas caretas a fazer lembrar o sr dr marques mendes e nós até pensamos que lhe tinha dado uma trombozezinha mas afinal era só comichão no nariz. Como agora não podemos botar as mãos na cara pedimos ao dick que esfregasse as patas na penca da mãezinha e pronto. É que está cientificamente comprovado que os animais não nos passam a bicheza. Ou, pelo menos, é o que dizem.
Até ao meu regresso.

Glicínia Bendita
A lutar contra a desdita

sábado, 28 de março de 2020

BENDITA, A ESCRITA


Querido livrinho de recordações conturbadas:

Sou franca, criei-te para ter que fazer nestes tempos estranhos que estamos a viver. Toda a vida foi-me exigido trabalho e mais trabalho e agora, vê lá tu, exigem-me que não mexa uma palha. Nem eu nem os meus. Cá por casa somos 5; eu, a mãezinha, o miro que é o meu homem, o mirinho que é o nosso filho e o dick que é o rafeiro. Não saímos de casa vai para 15 dias o que se torna um bocadinho aborrecido. Felizmente vivemos num T1 muito espaçoso com quase 25 metrinhos quadrados que nem chegou a 200.000 EUR. Uma pechincha e ainda por cima com uma varanda de 1 por 1 que dá para o dick correr à vontade. Atrás do rabo. Ontem para matarmos o tempo jogamos às imitações; ao miro pedimos que imitasse um estúpido. Segue-se que ele pôs uma cabeleira loira com uma grande pala à frente. Ninguém adivinhou quem era mas estou convencida que já ouvi aquele sotaque norte amaricano que o miro fez em qualquer lado. A seguir pedimos ao mirinho para imitar um burro. Ele pôs uma peruquinha preta, fez uma cara de trambolho e voz rouca. Também ninguém adivinhou mas o sotaque do mirinho deixou-me desconfiada. Que burro brasileiro estaria ele a imitar? Depois foi a vez da mãezinha imitar um infectado; mais uma vez ninguém acertou mas como é que podíamos se ela pôs uma peruca loira toda despenteada, fez uma cara de anormal e começou a falar com a língua enrolada? Nós até ficamos na dúvida se era mesmo uma imitação ou se eram começos de alzheimer. A ver vamos. Ao dick pedimos-lhe para imitar um mau e ele, pumba, pôs logo a carinha chapada do sr dr miguel sousa tavares. Que jeito tem este cão para as imitações. Até no rosnar era tal e qual. A mim tocou-me imitar um habilidoso mas quando eu já ia toda lampeira buscar a peruca branca para fazer de sr dr antónio costa, a televisão actualizou os numerozinhos da bicheza. Segue-se que deu semelhante chilique à mãezinha que foi preciso ampará-la com meia garrafita de aguardente. Ela, coitadinha, começou logo a espumar-se toda o que é normal quando está muito satisfeita mas nós, por via das dúvidas, demos-lhe a outra meia garrafita, que a mãezinha é de risco. Olha querido livrinho, por ora vou ter de ficar por aqui porque estou a ver o miro e o mirinho em frente à televisão, a mandarem os baldes vazios das pipocas pela janela fora. Já estou farta de lhes dizer que não se deve fazer isso. Há que fechar os baldes muito bem fechados dentro de um saco de plástico e só depois é que se mandam pela janela. Nós temos de ser cívicos e não devemos contaminar ninguém, não é?

Glicínia Bendita
Agora virada para a escrita

sábado, 21 de março de 2020

ZAUDAZÕES BINHADEIRAS


Benho à boza bresença pá abisar gue anda bor aí um bixo gué traizoeiro e por izo débeis der muido guidado. Eu e os meus combanheiros já esdamos em quarendena no tasco do tone inda o bicho num tinha xegado à China. Jama-se a isto ser prebidente. O tone sacou uma vagaceira na candonga que, num desfazendo, é o melhor remédio para matar o bixo. Nós gomezamos logo de manhãzinha e depois vamo-lo-zio matando bárias bezes ao dia que ele é manhoso e nunca ze zabe ze num pode ressuszitar comó outro. Há guem diga gue estar de quarendena é avorrecido mas nós aqui estamos vem gue vem. Temos feito muidas limpezas; limpamos 3 pipas de dão meia encosta, 2 pipas de carrascão e 27 garravões de berde branco pa ajudar o tone a dezocupar espazo. Tamvém danzamos muido, sovredudo tango, mas cada um danza agarrado à caneca para ebitar proximidades. O quim barveiro gue num é de tangos comezou a danzar o "thriller" do maigel jagson. Endusiasmou-ze tanto go ridmo gue se desiguilivrou, vateu em cheio ca testa no grabador de gassetes e adormezeu. Temos-le dado bagaceira com fartura num bá o bixo apanhar o quim barveiro à traizão mas a berdade é que inda num agordou. Por cauza disso estamos todos um vocado lanzudos e co a varva pelos joelhos mas já resolvemos o brovlema; pusemos um letreiro à porta do tasco a dizer urzos em guarentena. Fazei gomo nós, ficai recolhidos co bixo é mau mas, à caudela, não danzeis o thriller.

À boza, desde gue ze azina,
Zé Ramadaz

PROTEJAM-SE