domingo, 1 de setembro de 2013
OLHÓ OS GIGANTONES
- Ó rui acha que...
- Pauloca, não me chame rui, para não me confundirem com o outro
- Pronto, ó mor, acha que...
- Pauloca, não me chame mor que isso é o que as mulheres do povo chamam aos homens delas
- Tá bem. Ó rumor, acha que...
- Pauloca, eu sou um candidato assumido, não sou um rumor
- Muito bem. Ruru, acha que este branco me fica bem?
- Claro, não vê a menina que eu também tou de branco
- Ó ruru, mas pa quê?
- Pa dar um ar sério e dinâmico
- Ó ruru, mas é tão pindérico. Eu gostava de uma peça mais garrida, um colar de pérolas, uma mala louis vuitton, sei lá
- Não seja estúpida. Temos de fazer de conta que também tamos em crise
- Tá bem. Ó ruru e o nosso partido é mesmo o Porto?
- Claro que não. É para nos identificarmos com os tripeiros.
- Ui, que horror. Destesto tripas com os feijões e mais não sei o quê
- Pauloca, faça das tripas coração
- Tá bem. Ruru, só mais uma pergunta
- Sim pauloca
- Onde é que fica Paranhos?
É GENUÍNA, QUE É DA JOVELINA
Cessinho Filho,
Sou-te franca, as saudades são tantas que às vezes até fico afrontada e tenho de arrotar. Sempre alivio a emoção e arejo o canal. A distância que nos separa deixa-me cada vez mais entupida mas, infelizmente, todos estamos expostos aos solavancos da vida. Que o digo o Berto e o Catotas que emigraro para a França no carro de uns amigos. Como o carro ia cheio tibero de ir na mala, que estava toda podre da ferruge. Segue-se que ao passar por um solavanco, a mala assapou e o Berto e Catotas malharo na estrada. Os outros não dero por nada e seguiro viagem. Resultado: estão bem que bem na França e o Berto mais o Catotas foro apanhados a gamar cobre nos postes de electricidade. Não se pode dizer que não tenho subido alto, mas apanharo semelhante descarga que viero por ali a baixo, que parecio torresmos. Lá diz o ditado, quanto mais alto se sobe, mais negro se fica.
Eu também me tenho visto negra desde que a tua irmã Mila arranjou um namorado novo. Não desfazendo, ela até escolheu bem os dezassete primeiros, mas tenho a impressão que este deve ter vindo doutro planeta. A gente fala-le e ele só responde "tá-se", "bué", "cu" ou "cool", ou lá que é. Parece um androide. Por causa disso, a semana passada até houve uma confusão. A Mila queixou-se que não tinha rede para o androide. O teu pai ouviu, foi logo ao Fredo da drogaria e trouxe dois rolos dela. Pensou que o namorado da Mila queria fazer um galinheiro. Só depois é que a tua irmã le explicou que era rede, mas de telemóvel. O teu pai voltou à drogaria mas o Fredo disse-le que dessa rede não tinha, mas que ia já encomendá-la.
Apesar das dificuldades, meu filho, nem tudo é mau. Por exemplo, quando onte acordamos, tivemos uma surpresa que não é para todos; o rio Crostas, que passa aqui em Afanães estava todo azulinho petróleo, que dava gosto vê-lo. O presidente da Câmbra, o Toninho, está até a pensar candidatá-lo às maravilhas de Portugal. Sim, porque rios não falto, mas azuis não há muitos. Isto dá pujança à terra e não tarda está a botar por fora de turistas. O Toninho vai também menagear o Adolfo da tinturaria pelos bons serviços prestados. Por acaso o Adolfo até é um bocado troca tintas, mas há outros bem piores que já foram menageados, de formas que para mim é tinto.
O que interessa é que estamos em boa propagação e até há quem diga que é bom para o rendimento per capita. Por acaso essa história não me cheira bem, porque sempre houve per cá pita e nunca ninguém precisou de a pôr a render.
Despeço-me, contando todos os minutos para voltar a ter nas mãos mais uma escritura das tuas. Até lá recebe uma beijoca daquelas tipo desentupidor da banca.
Desta tua mãe que se assina,
Jovelina
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
SÓ CAVACOS
- Ó maria, isto está tudo queimado
- Ó níbal, tu bem sabes que é assim nesta época
- Ó maria, mas isto está tudo queimado
- Ó níbal, não te tivesses esquecido da agricultura e das florestas
- Ó maria, isto está mesmo tudo queimado
- Ó níbal, não te tivesses virado só para o betão
- Ó maria, isto está queimadíssimo
- Ó níbal, mas afinal de que é que estás a falar?
- Dos meus fusíveis, maria...
MAIS UM ARREMESSO DO ABCESSO
Querida Mãezinha,
As saudades são víboras que envenenam o meu coração e aumentam a distância que nos separa. Não fosse o antídoto destas palavras e seria um farrapo humano, buscando desesperado o caminho da salvação, isto é, do lar.
Estou melhorzinho. As aplicações de pomada no enes e de aguardente nos galos, lograram proporcionar-me um efectivo alento. Voltei a acreditar, perseverei e, enfim, alcancei uma nova profissão. Desta feita num salão de cabeleireiro de senhoras. Estou rodeado de mulheres mas não te preocupes, Mãezinha, que sei tomar as devidas cautelas. Em Afanães as raparigas eram sobre o atrevido e várias foram as vezes em que tive de me dar ao respeito. Na cidade, mais do que atrevidas, as mulheres são deveras atiradiças e até mesmo inconvenientes. Vê tu que há dias, estava eu a fazer um brushing e uma safada teve o desplante de me afagar, digamos, o traseiro enquanto dizia alto e a bom som:
- Que rico cagueiro!
Desta vez, Mãezinha, transcrevi textualmente o que foi dito pela desavergonhada para que percebas aquilo a que uma pessoa honesta está sujeita, para ganhar a vida. Dei-lhe logo para trás e mandei-a à missa. Sim, porque o que elas querem é abusar do meu corpo, para a seguir fugirem e deixarem-me um filho nos braços, não é Mãezinha? De resto só tenho a dizer bem. Todos me acarinham, sobretudo o Bi, que é o dono do salão. Não desfazendo, é uma doçura. Dá-me repetidos e inusitados mimos. Eu permito mas estou alerta. É que ainda me recordo das mesuras dos anteriores patrões e a seguir foi o que se viu. Às tantas o Bi é só carinhos e depois também me deixa o enes inflamado.
Quando se der o o ansiado momento do nosso reencontro, prometo que te faço um frisado com mechas longas, a condizer com o teu buçinho. Ao pai reservo-lhe uma pala frisada em degradé e cachos de caracois no bigode, a condizer com o bombo. Mas não lhe desvendes por ora o teor desta confidência, que o pretendo surpreender a contento, está bem?
Até lá, recebe todo o amor do mundo neste beijinho rechonchudo que te endosso.
Deste teu filho amado,
Abcesso Inocêncio Truncado
domingo, 25 de agosto de 2013
BOTA VASELINA ,QUE QUEM TE DIZ É A JOVELINA
Cessinho Filho,
É possível que desta vez a minha letra chegue aí tremida porque, no momento em que te escrevo, estou a cortar as unhas dos pés ao avô Epifâneo. Com a idade, pusero-se grossas que parece placas de contraplacado. E as estepores cresce num instante que, se a gente não as cortar, quando tal, o avô já pode dormir em cima dum poleiro, que num cai.
Foi com a tristeza a cortar-nos o coração como fatias de presunto, que ficamos a saber que aí, na cidade, também te aplicaram a austeridade. Nós, por cá, já a sentimos há muito, pois que cada vez há coisas mais caras e menos coroas. Então, da gasosa nem é bom falar. Felizmente o teu pai teve um daqueles ataques de inteligência que lhe costumo dar quando está a desancar no bombo e descobriu que a nossa furgoneta gasta menos se andar de marcha atrás. Desde então, nunca mais quis outra. Agora andamos de marcha atrás para todo o lado. Torna-se um bocadinho difícil a ultrapassar e a tirar o talão nas portages, é certo, mas poupa-se que é um consolo. À noite, botamos um capacete de mineiro no avô e pômo-lo na mala com a cabeça de fora a alumiar. Quando o teu paizinho quer dar máximos, assenta-le com a maceta do bombo na tola, que a luz aumenta logo. Não sei é se fará bem ao avô. Cada vez que ele leva uma foeirada grita: - Fujam pós abrigos! Deve vir-le à ideia a política, tadito. A verdade é que, mesmo esquecidinho, passou a ser a luz que nos guia.
Cessinho, vou-te mandar pomada para o olho inflamado e mais um garrafãozito de aguardente para esfregares nos galos. Por fora e por dentro. Mas atenção, não troques as mãos; se botas a pomada nos galos e a aguardente no olho, passas a correr os 100 metros mais rápido do que o gajo da Jamaica.
E acima de tudo continua a acreditar. A cêpa está torta, por agora, mas se continuares a insistir vais ver que, não tarda, a endireitas.
Recebe beijos meus e nossos, madurinhos de saudades.
Desta tua mãe que se assina,
Jovelina.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
EU ABCESSO, ESTOU DE REGRESSO
Querida Mãezinha,
Vagas enormes de saudades submergiram-me e, qual tsunami voraz, arrastaram-me para o fundo do meu sofrer. Sim, sinto-me afogado se bem que, para isso, também tenha contribuído o último garrafãozinho de remédio que me endossaste. Perdoe-me o Sr. Bezaina, meu vizinho, mas desta feita, segui o conselho dos meretíssimos da Relação e despejei-o, goela abaixo. Precisava de aliviar as agruras da vida, que tanto me têm atormentado. O alívio atingiu tal preponderância que só acordei quatro dias depois, a falar paquistanês. Não se pode dizer que fosse um paquistanês fluente, mas era muito aceitável, atento o facto de nunca ter tido contacto com a língua. Perguntar-me-ás então tu, querida Mãezinha:
- O que é que se passou, filhinho?
É com o coração despedaçado e com o fígado inchado que te passo a expor:
alcancei uma nova colocação profissional e ainda por cima numa empresa de negócios financeiros. Os patrões, senhores de educação irrepreensível e de elevado polimento, tratavam-me com uma delicadeza que me sensibilizava deveras. O trabalho, esse, nem tão pouco era desgastante, aliás nem era nenhum. Passava os dias sentado atrás duma secretária, enquanto eles faziam telefonemas. Um dia, confiaram-me duas grandes malas cheias de notas de 500€ e pediram-me para as levar a um amigo deles. Disseram-me que ele as ia branquear. Para lhes mostrar todo o meu reconhecimento, apreço e gratidão, chamei a mim a tarefa, com inusitado denodo e não inferior empenho. Adquiri uma máquina de sulfatar em segunda mão, enchi-a de cal e sulfatei as notas em abundância. Ficaram lindas de tão alvas. Mas este mundo é injusto, Mãezinha; em lugar de me agradecerem, os patrões aplicaram-me uma espécie de austeridade, sob a forma de incisivos pontapés no fundo das costas. O resultado foi que eles ficaram com as notas brancas e eu com o enes negro. E ainda nem sarei dos galos. Mas não, Mãezinha, não penses que vou esperar sentado. Até porque não posso, atento o estado do enes. Continuarei, como até aqui, a pugnar por um emprego, enquanto lhe chego laurodáme para alívio da inflamação.
Por ora, por aqui me quedo, solicitando-te mais um garrafãozinho de remédio e duas bisnagas da dita pomada que, pelo aspecto do enes, bem necessárias vão ser.
Recebe beijos deste teu filho amado,
Abcesso Inocêncio Truncado
domingo, 18 de agosto de 2013
APURA A RETINA, QUE É A JOVELINA
Cessinho, Filho,
Antes de mais quero dizer-te que as saudades que sentimos são maiores que o camartelo do Zé Bigodes, empreiteiro. Lembras-te dele, não lembras, filhinho? Era o que andava sempre cheio de canetas por fora do bolso da camisa, apesar de não saber ler nem escrever. A verdade é que lá tirou a cartita e era vê-lo a andar por aí de mercedolas descapotável, com os bigodes ao vento. Por acaso, deixei de o ver desde que o presidente da câmara, o Toninho, desfez a sociedade com ele. Diz que agora, o Zé, nem dinheiro tem para o gasunço. Mas que fez obras lindas em Afanães, lá isso fez. O centro comercial por exemplo. Só tem lojas vazias mas é todo espelhado por fora e dá muito sainete à terra. A biblioteca também ficou um encanto. Só abriu para ser inaugurada pelo Toninho antes das eleições, mas deu muita cultura a Afanães. Quase todos temos lá uma horta, no terreno das traseiras. A piscina, essa ficou a meio, mas a culpa não foi do Zé; já tinham sido as eleições e o Toninho precisou dos azulejos para a casa dele. Antes das próximas acaba-se e vais ver que vai ficar um consolo.
Por falar em sugar, aqui há atrasado tivemos uma praga de mosquitos e de melgas que nem te conto. Mas o pior não foi isso. O avô Epifânio, desde que ficou esquecidinho da cabeça, ganhou tendência para fazer coisas diferentes. Desta vez, como não conseguia apanhar os mosquitos, comprou uma latita de 20 litros de cola de contacto e untou-se todo. Apanhou mosquitada à brava, mas também apanhou o pechiché, o penico e só não foi a escrivaninha porque o teu pai tirou-la a tempo. Com uma rebarbadeira. Quando chegou ao hospital tibero de o botar de molho em acetona. Já lá está vai para uma semana e parece que é para continuar. Pelo menos teve uma coisa boa; andava com a placa a abanar e agora está ali como o aço.
Bom, por aqui me fico, desejando que te mantenhas igual a ti próprio porque, se assim for, será teu o reino do labor. Não te esqueças que bem aventurados são aqueles que são bem aventurados, compreendestes?
Recebe beijos de todos e especialmente desta que se assina,
Jovelina
PS: Já seguiu mais um garrafãozito de aguardente, quer dizer, de remédio, para o teu vizinho. A esse deve ter-le dado forte, a custipação. Aproveita e toma também que te faz bem aos galos e a qualquer outra criação que possas vir a ter.
Recebe beijos de todos e especialmente desta que se assina,
Jovelina
PS: Já seguiu mais um garrafãozito de aguardente, quer dizer, de remédio, para o teu vizinho. A esse deve ter-le dado forte, a custipação. Aproveita e toma também que te faz bem aos galos e a qualquer outra criação que possas vir a ter.
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