sábado, 13 de abril de 2013

PAPA PAPÃO


- Olha que o Papão vem e leva-te! As palavras da mãe afogavam-no no mar de sopa que tinha pela frente e já nem o medo o impelia a lutar. Sabia que não conseguiria e não conseguiu. Foi mandado de castigo para o quarto e sentiu que aquela seria a última noite. Aninhou-se debaixo da cama, apertou o action man entre as mãos suadas e esperou pelo fim. O Papão não veio. No dia seguinte, animado pela bendita ausência, arriscou de novo. O castigo foi o mesmo, mas o Papão não apareceu. Da terceira vez, nem esperou pela ordem. Dirigiu-se de imediato para o quarto com um sorriso confiante. O Papão não veio. Saboreou, vitorioso, a entrada na idade adulta. O que nunca chegou a saber é que o Papão não veio porque, também ele, tinha recusado comer a sopa. E, claro, fora levado pelo Homem do Saco.

terça-feira, 9 de abril de 2013

ENCOSTO NACIONAL



- Eu bem te disse
- Disseste-me o quê?
- Que devíamos ter privatizado o TC
- Pois devíamos, agora onde vamos sacar tanto dinheiro?
- E se pedíssemos emprestado à galilei?
- À quem?
- À SLN do oliveira e costa. Desde que mudou de nome, dizem que está a ganhar balúrdios
- Esse não, que só gosta de distribuir prejuízos
- Então, por que não pedimos ao cabo-verdiano?
- Ao quem?
- Ao dias loureiro
- Esse não, que só é amigo do presidente
- Podíamos dar um toque ao mexia. Olha que o gajo tem um rico pé de meia
- Não te metas em chinezisses
- E se falássemos ao belmiro?
- Vê lá se queres acabar a receber menos do que o salário mínimo
- Nesse caso, só nos resta continuar a sacá-lo aos mesmos
- Lá terá que ser
- Entretanto vai tratando da vida
- Qual vida?
- Da nossa, para quando formos à vida
- Lá terá que ser
- Pronto, vamos ao discurso: - Portugueses, o Governo enfrentará lado a lado convosco todas as dificuldades. Agirei com todas as minhas forças em prol do interesse nacional e...

sábado, 6 de abril de 2013

AUSÊNCIA DE URGÊNCIA


- Desculpe interromper-lhe o fim de semana, mas...
- Por acaso, foi aborrecido
- Alguma coisa importante, presumo
- Estava a ganhar no jogo com que mais me identifico
- Qual, senhor presidente?
- Matrecos
- Peço muita desculpa, mas é de facto importante
- Então, o que me quer?
- Trago más novas, senhor presidente
- Não me diga que me vai cortar mais a reforma?
- Bem pelo contrário, senhor presidente
- Vai dizer-me que o dias loureiro foi preso?
- Também não, senhor presidente
- Então qual é o problema?
- O TC chumbou o OE
- Ai chumbou?
- É verdade,senhor presidente
- Isso é mau
- O que fazer, senhor presidente?
- Diga ao OE para estudar muito
- Para quê, senhor presidente?
- Para voltar a fazer o exame na segunda época
- O exame?
- Se o OE estudar muito não chumba de certeza
- Ó senhor presidente, não está a perceb...
- E já agora, diga-me, quem é esse TC?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

RESVALA O RELVAS



Por ele tinha continuado, até porque estava a gostar. Infelizmente sofria de ejaculação precoce. Maldito Org asno!


- Ó mãe, ó mãe, aquele menino caiu abaixo do governo!
- Ó filho, qual governo?


- Caíste e estás em forma?
- Ainda estou melhor
- Melhor do que em forma?
- Claro. Estou em tecnoforma


- Ó homem, não me entres em casa com os sapatos nesse estado!
- Que têm os sapatos?
- Então não vês que estão cheios de relvas?
- Ó diabo, antes a merda do cão!
- Qual cão?
- O cão do miguel...


Afinal, parece que o curso não é válido, mas só se descobriu agora.
Uma no crato e outra na licenciatura...


segunda-feira, 1 de abril de 2013

EM ABRIL, MILAGRES MIL




Nem queria acreditar. Estava ali, em cima de uma árvore, vestido de noiva. O baile de máscaras explicava o vestido. Uma estúpida necessidade fisiológica mais o arrepiante olhar de um animal que lhe surgiu de repente, fizeram o resto. Agora, estava ali, na escuridão da noite, com o rosnar da besta a arrancar-lhe o coração do peito. Rezou durante horas por um milagre que o salvasse ou ao menos o deixasse respirar. O raiar da aurora trouxe finalmente um silêncio que pensava já não existir e mostrou-lhe que o animal se fora. Sentiu um alívio celestial. Relaxado, abriu os braços e espreguiçou-se. Naquele gesto, o vestido de noiva foi trespassado pelos raios de sol e exibiu uma beleza divina. De repente, um ruído. Aterrado, olhou para baixo e viu três crianças que o fixavam incrédulas. Desceu como pôde mas, quando chegou ao chão, já tinham desaparecido. Não perdeu mais tempo. Saiu dali a correr que já chegava de aparições. As crianças, essas falaram e toda a gente ficou a saber. Ainda hoje se conta o episódio embora as datas nem sempre coincidam. Uns dizem que foi em Maio. Outros em Abril. E logo no primeiro dia.

sábado, 30 de março de 2013

SEGURANÇA PÚBICA



Excelentíssimo senhor comandante bagina,

Antes de mais deixe-me felicitá-lo pelo árduo trabalho que está a desenvolver no Porto. Confesso-lhe que gosto muito de si. E não sou o único. Ainda ontem, ouvi no metro, um senhor dizer ao amigo: - Bagina é bem bom. Ao que o outro respondeu: - É maravilhoso. Como vê, não lhe faltam admiradores. Estou desconfiado que até o próprio John Lennon estava a pensar no sr. comandante quando escreveu aquela canção do " E Bagina all the people...". Mas, sejamos realistas, também por aí andam detractores. São os que dizem que V. Exa. por ser sobre o forte, parece um salpicão de Lamego. Com bigode. Más línguas, sr. comandante; primeiro, onde é que já se viu um salpicão com bigode? Segundo, se houvesse parecenças entre V. Exa. e um salpicão nunca seria com os de Lamego, mas com os de Chaves, que são mais moles. Quanto ao resto, não dê importância; bagina de pêlo na benta e muito bem. Essa corja de maldizentes está por todo o lado de forma que, se o sr. comandante bagina olhar para trás e vir um desses caras de cu, com todo o respeito, não ligue. É normal.
Aproveito para lhe pedir um favor; de uma vez por todas proíba as pessoas de andarem nos passeios. É que muitas são as que circulam com guarda-chuvas, muletas, cadeiras de rodas e outros objectos cortantes, que riscam impunemente os nossos carros. Quer dizer, vai um cidadão estacionar em cima dum passeio para, civicamente, não perturbar a fluidez do trânsito e quando retorna à viatura lá está o prejuízo. Da última vez que me aconteceu, deu-se-me um desgosto tal que passei a estacionar nas passadeiras. Sempre é mais seguro.
Desejo que V. Exa. continue a alimentar-se bem e, sobretudo, resguarde-se e resguarde os seus homens, não vá o diabo tecê-las. Hoje em dia há tantos perigos nas ruas que o melhor é prevenir. Não se esqueça que, se der chatice, ficarão exactamente como fica o cidadão, ou seja, ninguém vos vem socorrer. E, em dias de chuva, nem pensem em sair; anda por aí muita bicheza no ar e não há coisa pior do que ver um sr. agente da autoridade com um pingo de vergonha, quero dizer, com um pingo no nariz. O tempo que vos sobra dediquem-no a treinar para as manifestações e para os jogos da bola. Mesmo que não haja manifestações nem campeonato de futebol, sempre se vai convivendo, não é? E não perca tempo com os que acusam a polícia de se ter demitido das suas funções de segurança pública. Esses, sr. comandante bagina, são uns conas. Com todo o respeito.

sexta-feira, 29 de março de 2013

COM PASSOS



Carrega-se a cruz pesada
Por entre gemidos e dores
Essa cruz que nos foi dada
Por vilões e malfeitores

Há bem por aí quem defenda
Que é cruz da ressurreição
Mas é mentira tremenda
Dos que não têm perdão

São receitas de calvários
Aviadas por gurus
Que assim convencem otários
A carregarem a cruz

E com vil descaramento
Fingem-se indignados
Queixam-se do sofrimento
Dos que mantêm calcados

Não carregues mais o peso
Dessa cruz que lhes pertence
Não te deixes ficar preso
Que sem luta não se vence