segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
DUX FALA
- Que opinião tem sobre as praxes?
- Sou a favor. Um gajo obrigar os caloiros a rastejar, pisá-los, enterrá-los em bosta de vaca e por aí fora, está bem.
- Não acha que isso é humilhação?
- Não, é integração.
- Mas já pensou nas praxes que o esperam quando terminar o curso?
- Quando terminar o curso?
- Ser obrigado a rastejar por um emprego precário e mal pago, ser pisado por bestas armados em chefes, ser enterrado em trabalho e por aí fora. Não lhe parece haver semelhanças?
- Ora bem, nós obrigamos o caloiro a andar com orelhas de burro
- Os patrões obrigam o empregado a andar com um barrete de pai natal, na quadra natalícia
- Nós obrigamos o caloiro a cantar músicas pimba na rua
- Os patrões obrigam o empregado a estar calado, senão rua
- Nós obrigamos o caloiro a fazer peditórios para nos encher os bolsos
- Os patrões obrigam o empregado a dar para os peditórios deles
- Mas nós tratamos o caloiro abaixo de cão
- Os patrões ao empregado tiram o pão
- Estou a ver que os patrões também percebem de integração
- Depois desta conversa, ainda é a favor das praxes?
- Sou, sou mas, pelo sim pelo não, quando acabar este curso vou tirar outro.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
QUANDO É QUE ME LIVRO?
- Fazia o favor?
- Queria A Ignorância, de Milan Kundera
- Desculpe, não temos...
- Então quero O Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago
- O que quero dizer é que não temos...
- Nesse caso traga-me No Reino Da Dinamarca, de Alexandre O´Neill
- Aqui não há livros
- Esta biblioteca não tem livros?
- Temos café, cerveja, doces, salgados...
- Esta biblioteca tem café, cerveja, doces, salgados?
- E meias de leite...
- Então aquele talho ali ao fundo tem o quê? Carapaus?
- Ora bem, julgo que não...
- E a aquela farmácia em frente? Cimento e tijolos?
- Bom, deve ter medicamentos...
- Então, por que é que esta biblioteca não tem livros?
- Aqui não é uma biblioteca, é uma cafetaria
- Uma cafetaria?
- Exactamente
- Uma cafetaria, aqui?
- Aqui
- E não tem livros?
- Não tem
- Mas sempre teve
- Agora não tem
- Então, traga-me o livro
- Outra vez, já lhe disse que não temos...
- O livro de reclamações. Curto e sem açúcar.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
CORROÍDAS
- Espectadores do c´anal aberto, bem vindos à última volta da grande corrida de fome e gula. As bandeiras agitam-se freneticamente colorindo a emoção que transborda das bancadas. Já se avistam os concorrentes na curva que antecede a recta final. Os motores nos limites, as mãos crispadas no volante, o olhar fixo na bandeira de xadrez, eles aí vêm num galope ensurdecedor. A corrida vai ser decidida em cima da meta e eis que, em primeiro lugar, passou um concorrente com três litros de leite, dois pacotes de arroz da marca pico dasse e duas caixas de palitos, das pequenas. Colado ao primeiro, passou o segundo concorrente também com três litros de leite e dois pacotes de arroz, da marca cão que mente, mas apenas com uma caixa de palitos. Em terceiro passou um concorrente com os mesmos três litros de leite e os dois pacotes de arroz, comprados numa promoção, mas sem qualquer caixa de palitos. Que bela corrida esta a que tivemos o privilégio de assistir. Tanto empenho e tanta entrega! Dentro de momentos terá lugar a habitual sessão de fotos após o que se seguirá a consagração dos vencedores com a entrega dos prémios. Ao primeiro classificado caberá o troféu "consciência aliviada", ao segundo o troféu "obrigação despachada" e ao terceiro o troféu "ai que generoso que sou".
Para o ano cá estaremos para mais uma explosão de adrenalina e, claro, de solidariedade.
Até lá.
Para o ano cá estaremos para mais uma explosão de adrenalina e, claro, de solidariedade.
Até lá.
domingo, 13 de outubro de 2013
BATE-TE
Descalçou as luvas, afastou a capa e afundou-se no sofá. Sentia-se cansado. Não o cansaço habitual, físico, mas um cansaço de identidade. Era apenas um homem mas o símbolo que criara não deixava que fosse apenas um homem. Ainda os perseguia nas trevas, mas há muito que eles as dominavam. Já não assaltavam bancos ou apontavam armas a vítimas indefesas. Compravam consciências, corrompiam-nas, usavam-nas para eternizarem a sua força. Não sabia se o seu poder negro alguma vez superaria o branco dos colarinhos deles. De repente um morcego raspou na vidraça da sala e mergulhou na noite, interrompendo-lhe o pensamento. Reclinou lentamente a cabeça para trás mas não retirou a máscara. Continuava a precisar dela para destruir a deles.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
SERÁ SEGURO?
Sou craque em publicidade
Tenho o curso completo
E a minha especialidade
É colar autarcas ao tecto
Tudo o que faço é pelo tacho
Que eles querem agarrar
Ponho-os de cabeça para baixo
Num país de pernas para o ar
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
EU TOPO
Na banca de hoje está tudo inventado. Por isso, quando aparece alguém que alcança sucessos tão deslumbrantes quanto maravilhosos, só deve ter dois destinos; ou vai para o topo ou vai para a rua. Em Portugal, infelizmente, houve alguns que deveriam ter ido para a rua mas acabaram no topo.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
ANDROIDES
- "És altamente".
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