terça-feira, 24 de dezembro de 2013

CORROÍDAS

- Espectadores do c´anal aberto, bem vindos à última volta da grande corrida de fome e gula. As bandeiras agitam-se freneticamente colorindo a emoção que transborda das bancadas. Já se avistam os concorrentes na curva que antecede a recta final. Os motores nos limites, as mãos crispadas no volante, o olhar fixo na bandeira de xadrez, eles aí vêm num galope ensurdecedor. A corrida vai ser decidida em cima da meta e eis que, em primeiro lugar, passou um concorrente com três litros de leite, dois pacotes de arroz da marca pico dasse e duas caixas de palitos, das pequenas. Colado ao primeiro, passou o segundo concorrente também com três litros de leite e dois pacotes de arroz, da marca cão que mente, mas apenas com uma caixa de palitos. Em terceiro passou um concorrente com os mesmos três litros de leite e os dois pacotes de arroz, comprados numa promoção, mas sem qualquer caixa de palitos. Que bela corrida esta a que tivemos o privilégio de assistir. Tanto empenho e tanta entrega! Dentro de momentos terá lugar a habitual sessão de fotos após o que se seguirá a consagração dos vencedores com a entrega dos prémios. Ao primeiro classificado caberá o troféu "consciência aliviada", ao segundo o troféu "obrigação despachada" e ao terceiro o troféu "ai que generoso que sou".
Para o ano cá estaremos para mais uma explosão de adrenalina e, claro, de solidariedade.
Até lá.

domingo, 13 de outubro de 2013

BATE-TE


Descalçou as luvas, afastou a capa e afundou-se no sofá. Sentia-se cansado. Não o cansaço habitual, físico, mas um cansaço de identidade. Era apenas um homem mas o símbolo que criara não deixava que fosse apenas um homem. Ainda os perseguia nas trevas, mas há muito que eles as dominavam. Já não assaltavam bancos ou apontavam armas a vítimas indefesas. Compravam consciências, corrompiam-nas, usavam-nas para eternizarem a sua força. Não sabia se o seu poder negro alguma vez superaria o branco dos colarinhos deles. De repente um morcego raspou na vidraça da sala e mergulhou na noite, interrompendo-lhe o pensamento. Reclinou lentamente a cabeça para trás mas não retirou a máscara. Continuava a precisar dela para destruir a deles.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

SERÁ SEGURO?



Sou craque em publicidade
Tenho o curso completo
E a minha especialidade
É colar autarcas ao tecto

Tudo o que faço é pelo tacho
Que eles querem agarrar
Ponho-os de cabeça para baixo
Num país de pernas para o ar

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

EU TOPO



Na banca de hoje está tudo inventado. Por isso, quando aparece alguém que alcança sucessos tão deslumbrantes quanto maravilhosos, só deve ter dois destinos; ou vai para o topo ou vai para a rua. Em Portugal, infelizmente, houve alguns que deveriam ter ido para a rua mas acabaram no topo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ANDROIDES



Ela era linda. Ele não tinha palavras para tanta beleza. Não conseguia ir além do "És altamente". Defeito de família. O pai só dizia "Vai no Vatalha", a mãe "Tá certo", o avô, "Pas..." e a avó, cozinheira, era conhecida pela muda das iscas. Um dia, pensou em escrever-lhe um poema, mas só se lembrava das armas e dos barões que por acaso até eram... altamente. Pensou arriscar a linguagem gestual, mas teve receio que ela preferisse a prosa. Pelo menos de início. Sentia um desespero lexical e nem sabia. Como não sabia dominar as vogais e as consoantes que bailavam furiosamente à volta da sua cabeça. Não era justo que as miseráveis o impedissem de declarar o seu amor. Agarrou-se à internet como um náufrago e procurou a melhor frase romântica. Aproximou-se dela, mas não conseguiu dizer-lha. Enviou-lha por telemóvel "Gostava de provar o sabor aveludado dos teus lábios". Ela, sensibilizada, respondeu, também por telemóvel:´
- "És altamente".

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

AI LIÇÕES



Beus abigos,

Abós uma brelongada entrospecção axiomático-vinhadeira sobre a ezênzia da sede, concluí que, neste espirituoso mundo em que bebemos, cu existem dois tipos de sede; a sede vinígola e a sede de poder. Guriosamente, esdamos perande sedes com muitos pondos comuns. Em ambas temos castas; na sede vinígola são as castas que apuram o produto; na sede de poder, castas o produto que apuram e depois bê-se. Na sede vinígola temos copos; na sede de poder temos tachos. Na sede vinígola temos gente que gosta de botar para vaixo; na sede de poder botamos em gente que a seguir nos bota avaixo. Barece confuso mas, se boberem um maduro tindo do bom, bom ber que cumprendem num insdante. Voi assim que eu fiz esta reflexão e por mim até continuava a reflectir o dempo que vosse breciso. O porvlema é que no Domingo bou ter de eleger uma pinga. Num gosto da do CDS (Carrascão Deteriorado e Sarrento); num gosdo da do PSD (Pinga Sempre Duvidosa); tamém num gosdo da do PS (Palhete Seco). Todos dizem que adoram o Porto. Pudera, num há outra pomada igual no mundo. Mas, beus abigos, esgolham bem, borgue muitos dezes gue por aí andam a dizer izo, se lhe puderem botar a mão transformam-no numa zurrapa. Tenho pito, quero dizer, dito.

Zaudazões binhadeiras deste vozo,

Manel Bezaina

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

PORTO FORTE?


Caros candidatos,

O Porto é forte. Na exclusão social, no desemprego, nas filas para a sopa dos pobres, nos negócios copofónicos travestidos de revitalização da baixa, no lixo pelas ruas, no cheiro a urina.

O Porto é forte na funcionalismo público tacanho que assaltou a mentalidade dos que tomaram o poder autárquico da cidade nos últimos anos, bem assim como dos seus seguidores.

O Porto é forte na incompetência e na invisibilidade das polícias (PSP e Municipal).

O Porto é forte no estacionamento selvagem e no desprezo pelos peões, com a total conivência das tais polícias.

O Porto é forte na falta de segurança rodoviária, privilegiando os carros em detrimento dos cidadãos. Precisamente o contrário do que se faz nas cidades mais evoluídas da Europa.

O Porto é forte nos seus desertos de pedra, que uns quantos "intelectualóides" pagos a peso de ouro com os impostos do povo ou com os dinheiros vindos da Europa, insistem em chamar praças. Antigamente eram locais aprazíveis onde as pessoas estavam e conversavam. Hoje apenas as atravessam.

O Porto é forte em baldios, em descampados, em lixeiras a céu aberto. Muitos poderiam ser espaços verdes para fruição da população.

O Porto é forte em edíficios decrépitos, a ameaçarem ruína, fruto de políticas que tanto incentivaram a migração para a periferia, contribuíndo para a lucrativa selva de betão que cercou a cidade.

O Porto é forte na poluição do seu Rio Douro.

O Porto é forte nos mergulhos terceiro mundistas dos miúdos nas suas àguas, à procura de moedas, lançadas para deleite de turistas.

O Porto é forte na falta de civismo que as autoridades autárquicas e as policias alimentam com a sua inércia e o seu absentismo.

O Porto é forte na degradação dos seus espaços públicos, de que toda a zona da Foz do Douro é um dos principais exemplos.

O Porto é forte. Na imensa fraqueza que os partidos que vos apoiam lhe infligiram durante anos a fio.

Se ganharem as eleições, continuaremos a ter esse Porto forte?