domingo, 13 de outubro de 2013
BATE-TE
Descalçou as luvas, afastou a capa e afundou-se no sofá. Sentia-se cansado. Não o cansaço habitual, físico, mas um cansaço de identidade. Era apenas um homem mas o símbolo que criara não deixava que fosse apenas um homem. Ainda os perseguia nas trevas, mas há muito que eles as dominavam. Já não assaltavam bancos ou apontavam armas a vítimas indefesas. Compravam consciências, corrompiam-nas, usavam-nas para eternizarem a sua força. Não sabia se o seu poder negro alguma vez superaria o branco dos colarinhos deles. De repente um morcego raspou na vidraça da sala e mergulhou na noite, interrompendo-lhe o pensamento. Reclinou lentamente a cabeça para trás mas não retirou a máscara. Continuava a precisar dela para destruir a deles.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
SERÁ SEGURO?
Sou craque em publicidade
Tenho o curso completo
E a minha especialidade
É colar autarcas ao tecto
Tudo o que faço é pelo tacho
Que eles querem agarrar
Ponho-os de cabeça para baixo
Num país de pernas para o ar
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
EU TOPO
Na banca de hoje está tudo inventado. Por isso, quando aparece alguém que alcança sucessos tão deslumbrantes quanto maravilhosos, só deve ter dois destinos; ou vai para o topo ou vai para a rua. Em Portugal, infelizmente, houve alguns que deveriam ter ido para a rua mas acabaram no topo.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
ANDROIDES
- "És altamente".
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
AI LIÇÕES
Beus abigos,
Abós uma brelongada entrospecção axiomático-vinhadeira sobre a ezênzia da sede, concluí que, neste espirituoso mundo em que bebemos, cu existem dois tipos de sede; a sede vinígola e a sede de poder. Guriosamente, esdamos perande sedes com muitos pondos comuns. Em ambas temos castas; na sede vinígola são as castas que apuram o produto; na sede de poder, castas o produto que apuram e depois bê-se. Na sede vinígola temos copos; na sede de poder temos tachos. Na sede vinígola temos gente que gosta de botar para vaixo; na sede de poder botamos em gente que a seguir nos bota avaixo. Barece confuso mas, se boberem um maduro tindo do bom, bom ber que cumprendem num insdante. Voi assim que eu fiz esta reflexão e por mim até continuava a reflectir o dempo que vosse breciso. O porvlema é que no Domingo bou ter de eleger uma pinga. Num gosto da do CDS (Carrascão Deteriorado e Sarrento); num gosdo da do PSD (Pinga Sempre Duvidosa); tamém num gosdo da do PS (Palhete Seco). Todos dizem que adoram o Porto. Pudera, num há outra pomada igual no mundo. Mas, beus abigos, esgolham bem, borgue muitos dezes gue por aí andam a dizer izo, se lhe puderem botar a mão transformam-no numa zurrapa. Tenho pito, quero dizer, dito.
Zaudazões binhadeiras deste vozo,
Manel Bezaina
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
PORTO FORTE?
Caros candidatos,
O Porto é forte. Na exclusão social, no desemprego, nas filas para a sopa dos pobres, nos negócios copofónicos travestidos de revitalização da baixa, no lixo pelas ruas, no cheiro a urina.
O Porto é forte na funcionalismo público tacanho que assaltou a mentalidade dos que tomaram o poder autárquico da cidade nos últimos anos, bem assim como dos seus seguidores.
O Porto é forte na incompetência e na invisibilidade das polícias (PSP e Municipal).
O Porto é forte no estacionamento selvagem e no desprezo pelos peões, com a total conivência das tais polícias.
O Porto é forte na falta de segurança rodoviária, privilegiando os carros em detrimento dos cidadãos. Precisamente o contrário do que se faz nas cidades mais evoluídas da Europa.
O Porto é forte nos seus desertos de pedra, que uns quantos "intelectualóides" pagos a peso de ouro com os impostos do povo ou com os dinheiros vindos da Europa, insistem em chamar praças. Antigamente eram locais aprazíveis onde as pessoas estavam e conversavam. Hoje apenas as atravessam.
O Porto é forte em baldios, em descampados, em lixeiras a céu aberto. Muitos poderiam ser espaços verdes para fruição da população.
O Porto é forte em edíficios decrépitos, a ameaçarem ruína, fruto de políticas que tanto incentivaram a migração para a periferia, contribuíndo para a lucrativa selva de betão que cercou a cidade.
O Porto é forte na poluição do seu Rio Douro.
O Porto é forte nos mergulhos terceiro mundistas dos miúdos nas suas àguas, à procura de moedas, lançadas para deleite de turistas.
O Porto é forte na falta de civismo que as autoridades autárquicas e as policias alimentam com a sua inércia e o seu absentismo.
O Porto é forte na degradação dos seus espaços públicos, de que toda a zona da Foz do Douro é um dos principais exemplos.
O Porto é forte. Na imensa fraqueza que os partidos que vos apoiam lhe infligiram durante anos a fio.
Se ganharem as eleições, continuaremos a ter esse Porto forte?
domingo, 22 de setembro de 2013
É A BUZINA DA JOVELINA
Cessinho Filho,
Acabamos de aconchegar uma orelheira de porco com couve e feijão vermelho que, não desfazendo, estava um consolo. Quando me veio à lembrança que é um dos teus pratos predilectos e tu sem le poderes botar o dente, até se me deu uma pontada do lado direito. Deve de ser as saudades a alojar-se na visícula.
Por aqui, em Afanães, as coisas têm continuado em boa estagnação, tirando o avô Epifâneo. Não sei se foi do bicho se atrasar um bocadito, o certo é que ganhou semelhante cisma ao cuco do relógio que nem queiras saber. Sempre que o bicho vinha cá fora dar horas, punha-se a insultá-lo do piorio. Às tantas, o cuco, já só botava a cabecita de fora e todo a tremer. Passou a ter uma profissão de desgaste rápido. Um dia, o avô enervou-se tanto que, quando tal, pegou no fusil do tio Negos e mandou-le um balázio. Felizmente não le acertou, mas fez um buraco atestado na parede da sala. Por acaso até me deu jeito porque assim passei a ter serventia para a cozinha sem ter de ir à volta pela porta. O teu paizinho, mal ouviu o estrondo, apareceu logo com o bombo à barriga. Pensou que era o grupo de Zés Pereiras a começar o ensaio. Para acabar com o assunto, tive de dizer ao avô que o cuco se apagou. Agora, espero que ele se vá deitar e só depois é que aproveito para ir dar de comer ao bicho, tadito.
O teu paizinho, esse também anda um bocadito diferente. Para desenjoar do bombo, deu-le para cantar músicas românticas. Sobretudo quando vai defecar. A que ele mais gosta é a do " Recordar é viver " do Espadinha. A parte do " Foi em Setembro que te conheci " ainda vai, mas quando chega ao " Trazias nos olhos a luz de Maio " já está em esforço. É do puxar. O romantismo do teu paizinho é um consolo. Cheira um bocadito mal, é certo, mas alivia. O maior problema é o avô Epifâneo. Mal ouve o paizinho a cantar, dá-lhe semelhante ataque de saudades do cuco que desata num pranto. E não há quem o cale. Segue-se que um dia até me apeteceu dizer-le que era tudo mentira, mas o cuco, antecipou-se e apareceu cá fora todo lampeiro. Mal o viu, o avô foi logo buscar a fusca e fez outro buraco na parede. Este vou ter de o mandar cimentar. Ou então mando-o nacionalizar que é o que está na moda fazer aos buracos, não é?
De resto, corre tudo dentro do normal, tirando a campanha para as eleições. Como se esperava, o Toninho recandidatou-se à Câmara. Desta vez anda a prometer que se deitarmos nele vai inaugurar umas termas em Afanães, mas não umas termas quaisquer. Estas só vão ter tratamentos à base de vinho, que é muito bom para o reumático e, a bem dizer, para tudo em geral. Nem queiras saber a quantidade de afaneneses que já anda para aí a queixar-se de reumatismo.
Finalmente, quero dizer-te que um dia destes vamos aí visitar-te e levar-te coisinhas boas de Afanães para te atrofiar as saudades. O paizinho promete que leva o bombo para dar ambiente, está bem?
Até lá recebe beijos desta tua mãe que se assina,
Jovelina
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