quarta-feira, 28 de agosto de 2013
SÓ CAVACOS
- Ó maria, isto está tudo queimado
- Ó níbal, tu bem sabes que é assim nesta época
- Ó maria, mas isto está tudo queimado
- Ó níbal, não te tivesses esquecido da agricultura e das florestas
- Ó maria, isto está mesmo tudo queimado
- Ó níbal, não te tivesses virado só para o betão
- Ó maria, isto está queimadíssimo
- Ó níbal, mas afinal de que é que estás a falar?
- Dos meus fusíveis, maria...
MAIS UM ARREMESSO DO ABCESSO
Querida Mãezinha,
As saudades são víboras que envenenam o meu coração e aumentam a distância que nos separa. Não fosse o antídoto destas palavras e seria um farrapo humano, buscando desesperado o caminho da salvação, isto é, do lar.
Estou melhorzinho. As aplicações de pomada no enes e de aguardente nos galos, lograram proporcionar-me um efectivo alento. Voltei a acreditar, perseverei e, enfim, alcancei uma nova profissão. Desta feita num salão de cabeleireiro de senhoras. Estou rodeado de mulheres mas não te preocupes, Mãezinha, que sei tomar as devidas cautelas. Em Afanães as raparigas eram sobre o atrevido e várias foram as vezes em que tive de me dar ao respeito. Na cidade, mais do que atrevidas, as mulheres são deveras atiradiças e até mesmo inconvenientes. Vê tu que há dias, estava eu a fazer um brushing e uma safada teve o desplante de me afagar, digamos, o traseiro enquanto dizia alto e a bom som:
- Que rico cagueiro!
Desta vez, Mãezinha, transcrevi textualmente o que foi dito pela desavergonhada para que percebas aquilo a que uma pessoa honesta está sujeita, para ganhar a vida. Dei-lhe logo para trás e mandei-a à missa. Sim, porque o que elas querem é abusar do meu corpo, para a seguir fugirem e deixarem-me um filho nos braços, não é Mãezinha? De resto só tenho a dizer bem. Todos me acarinham, sobretudo o Bi, que é o dono do salão. Não desfazendo, é uma doçura. Dá-me repetidos e inusitados mimos. Eu permito mas estou alerta. É que ainda me recordo das mesuras dos anteriores patrões e a seguir foi o que se viu. Às tantas o Bi é só carinhos e depois também me deixa o enes inflamado.
Quando se der o o ansiado momento do nosso reencontro, prometo que te faço um frisado com mechas longas, a condizer com o teu buçinho. Ao pai reservo-lhe uma pala frisada em degradé e cachos de caracois no bigode, a condizer com o bombo. Mas não lhe desvendes por ora o teor desta confidência, que o pretendo surpreender a contento, está bem?
Até lá, recebe todo o amor do mundo neste beijinho rechonchudo que te endosso.
Deste teu filho amado,
Abcesso Inocêncio Truncado
domingo, 25 de agosto de 2013
BOTA VASELINA ,QUE QUEM TE DIZ É A JOVELINA
Cessinho Filho,
É possível que desta vez a minha letra chegue aí tremida porque, no momento em que te escrevo, estou a cortar as unhas dos pés ao avô Epifâneo. Com a idade, pusero-se grossas que parece placas de contraplacado. E as estepores cresce num instante que, se a gente não as cortar, quando tal, o avô já pode dormir em cima dum poleiro, que num cai.
Foi com a tristeza a cortar-nos o coração como fatias de presunto, que ficamos a saber que aí, na cidade, também te aplicaram a austeridade. Nós, por cá, já a sentimos há muito, pois que cada vez há coisas mais caras e menos coroas. Então, da gasosa nem é bom falar. Felizmente o teu pai teve um daqueles ataques de inteligência que lhe costumo dar quando está a desancar no bombo e descobriu que a nossa furgoneta gasta menos se andar de marcha atrás. Desde então, nunca mais quis outra. Agora andamos de marcha atrás para todo o lado. Torna-se um bocadinho difícil a ultrapassar e a tirar o talão nas portages, é certo, mas poupa-se que é um consolo. À noite, botamos um capacete de mineiro no avô e pômo-lo na mala com a cabeça de fora a alumiar. Quando o teu paizinho quer dar máximos, assenta-le com a maceta do bombo na tola, que a luz aumenta logo. Não sei é se fará bem ao avô. Cada vez que ele leva uma foeirada grita: - Fujam pós abrigos! Deve vir-le à ideia a política, tadito. A verdade é que, mesmo esquecidinho, passou a ser a luz que nos guia.
Cessinho, vou-te mandar pomada para o olho inflamado e mais um garrafãozito de aguardente para esfregares nos galos. Por fora e por dentro. Mas atenção, não troques as mãos; se botas a pomada nos galos e a aguardente no olho, passas a correr os 100 metros mais rápido do que o gajo da Jamaica.
E acima de tudo continua a acreditar. A cêpa está torta, por agora, mas se continuares a insistir vais ver que, não tarda, a endireitas.
Recebe beijos meus e nossos, madurinhos de saudades.
Desta tua mãe que se assina,
Jovelina.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
EU ABCESSO, ESTOU DE REGRESSO
Querida Mãezinha,
Vagas enormes de saudades submergiram-me e, qual tsunami voraz, arrastaram-me para o fundo do meu sofrer. Sim, sinto-me afogado se bem que, para isso, também tenha contribuído o último garrafãozinho de remédio que me endossaste. Perdoe-me o Sr. Bezaina, meu vizinho, mas desta feita, segui o conselho dos meretíssimos da Relação e despejei-o, goela abaixo. Precisava de aliviar as agruras da vida, que tanto me têm atormentado. O alívio atingiu tal preponderância que só acordei quatro dias depois, a falar paquistanês. Não se pode dizer que fosse um paquistanês fluente, mas era muito aceitável, atento o facto de nunca ter tido contacto com a língua. Perguntar-me-ás então tu, querida Mãezinha:
- O que é que se passou, filhinho?
É com o coração despedaçado e com o fígado inchado que te passo a expor:
alcancei uma nova colocação profissional e ainda por cima numa empresa de negócios financeiros. Os patrões, senhores de educação irrepreensível e de elevado polimento, tratavam-me com uma delicadeza que me sensibilizava deveras. O trabalho, esse, nem tão pouco era desgastante, aliás nem era nenhum. Passava os dias sentado atrás duma secretária, enquanto eles faziam telefonemas. Um dia, confiaram-me duas grandes malas cheias de notas de 500€ e pediram-me para as levar a um amigo deles. Disseram-me que ele as ia branquear. Para lhes mostrar todo o meu reconhecimento, apreço e gratidão, chamei a mim a tarefa, com inusitado denodo e não inferior empenho. Adquiri uma máquina de sulfatar em segunda mão, enchi-a de cal e sulfatei as notas em abundância. Ficaram lindas de tão alvas. Mas este mundo é injusto, Mãezinha; em lugar de me agradecerem, os patrões aplicaram-me uma espécie de austeridade, sob a forma de incisivos pontapés no fundo das costas. O resultado foi que eles ficaram com as notas brancas e eu com o enes negro. E ainda nem sarei dos galos. Mas não, Mãezinha, não penses que vou esperar sentado. Até porque não posso, atento o estado do enes. Continuarei, como até aqui, a pugnar por um emprego, enquanto lhe chego laurodáme para alívio da inflamação.
Por ora, por aqui me quedo, solicitando-te mais um garrafãozinho de remédio e duas bisnagas da dita pomada que, pelo aspecto do enes, bem necessárias vão ser.
Recebe beijos deste teu filho amado,
Abcesso Inocêncio Truncado
domingo, 18 de agosto de 2013
APURA A RETINA, QUE É A JOVELINA
Cessinho, Filho,
Antes de mais quero dizer-te que as saudades que sentimos são maiores que o camartelo do Zé Bigodes, empreiteiro. Lembras-te dele, não lembras, filhinho? Era o que andava sempre cheio de canetas por fora do bolso da camisa, apesar de não saber ler nem escrever. A verdade é que lá tirou a cartita e era vê-lo a andar por aí de mercedolas descapotável, com os bigodes ao vento. Por acaso, deixei de o ver desde que o presidente da câmara, o Toninho, desfez a sociedade com ele. Diz que agora, o Zé, nem dinheiro tem para o gasunço. Mas que fez obras lindas em Afanães, lá isso fez. O centro comercial por exemplo. Só tem lojas vazias mas é todo espelhado por fora e dá muito sainete à terra. A biblioteca também ficou um encanto. Só abriu para ser inaugurada pelo Toninho antes das eleições, mas deu muita cultura a Afanães. Quase todos temos lá uma horta, no terreno das traseiras. A piscina, essa ficou a meio, mas a culpa não foi do Zé; já tinham sido as eleições e o Toninho precisou dos azulejos para a casa dele. Antes das próximas acaba-se e vais ver que vai ficar um consolo.
Por falar em sugar, aqui há atrasado tivemos uma praga de mosquitos e de melgas que nem te conto. Mas o pior não foi isso. O avô Epifânio, desde que ficou esquecidinho da cabeça, ganhou tendência para fazer coisas diferentes. Desta vez, como não conseguia apanhar os mosquitos, comprou uma latita de 20 litros de cola de contacto e untou-se todo. Apanhou mosquitada à brava, mas também apanhou o pechiché, o penico e só não foi a escrivaninha porque o teu pai tirou-la a tempo. Com uma rebarbadeira. Quando chegou ao hospital tibero de o botar de molho em acetona. Já lá está vai para uma semana e parece que é para continuar. Pelo menos teve uma coisa boa; andava com a placa a abanar e agora está ali como o aço.
Bom, por aqui me fico, desejando que te mantenhas igual a ti próprio porque, se assim for, será teu o reino do labor. Não te esqueças que bem aventurados são aqueles que são bem aventurados, compreendestes?
Recebe beijos de todos e especialmente desta que se assina,
Jovelina
PS: Já seguiu mais um garrafãozito de aguardente, quer dizer, de remédio, para o teu vizinho. A esse deve ter-le dado forte, a custipação. Aproveita e toma também que te faz bem aos galos e a qualquer outra criação que possas vir a ter.
Recebe beijos de todos e especialmente desta que se assina,
Jovelina
PS: Já seguiu mais um garrafãozito de aguardente, quer dizer, de remédio, para o teu vizinho. A esse deve ter-le dado forte, a custipação. Aproveita e toma também que te faz bem aos galos e a qualquer outra criação que possas vir a ter.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
AI MÃEZINHA, QUE É SÓ GALOS
Querida Mãezinha,
Que esta missiva te vá repenicar de beijos, e bem assim ao paizinho e restante família, são os votos deste teu rebento, que de saudades rebenta.
Desta feita tenho uma boa nova e uma menos boa nova para te endossar. A boa é que logrei obter um emprego. A menos boa é que já me encontro desempregado. Com efeito, ingressei no serviço pós-venda duma empresa que comercializa um produto para aumentar, digamos, o orgão reprodutor masculino. Não calculas, mãezinha, a quantidade de pedidos. No fundo, são homens gananciosos que, em lugar de se contentarem com aquilo que a natureza lhes proporcionou, pretendem sempre mais e mais. Sucede, porém, que o produto comercializado não era bem aquilo que eles idealizavam. Tratava-se de uma lupa; lá aumentar, aumentava, mas não aumentava a contento. Assim, muitos foram os que se dirigiram ao serviço pós-venda, onde eu laborava, para manifestarem a sua insatisfação. Após ter recebido uma quantidade apreciável de lupas na cabeça, o que me provocou igual quantidade de erecções cranianas, vulgo galos, acabei por me desinteressar do exercício da profissão. Quero, no entanto que saibas, mãezinha, que a minha vontade de trabalhar não murchou, antes pelo contrário, continua a crescer. E sem lupa.
Aproveito para te informar que recebi o garrafãozinho de aguardente que tiveste a amabilidade de me remeter. Sucede que o vizinho de baixo, o Sr. Bezaina, que não desfazendo, é uma jóia, apareceu cá com uma constipação em elevado grau de gestação. Referiu-me que a maleita provinha de uma corrente de bar e pediu-me uma medicação eficaz para o ataque ao vírus. Avancei com um benuron, mas o paciente preferiu a aguardente. Tem cá vindo todos os dias tomar, digamos, o remédio mas, estranhamente, não lhe conheço melhoras. Por isso te peço, mãezinha, envia-me mais medicação, porque o pobre senhor ainda está muito atacado.
Por ora, por aqui me fico, ansiosamente expectando por novas.
Deste teu e vosso,
Abcesso Inocêncio Truncado
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
É JOVELINA, QUE SE ASSINA
Cessinho Filho,
As saudades que tomaro conta de nós foro tantas que até se nos incharo os dedos dos pés. O Xonas da farmácia diz que é da gente comer alheiras e mouras todos os dias, mas a mim ninguém me tira que é da tua falta. Fora os inchaços, aqui em Afanães, continuamos com a desenvoltura habitual que é, como quem diz, está tudo na mesma. Quem também tem sentido a tua falta é o nosso grupo de Zés Pereiras. Queixo-se, desde que foste embora, que o teu pai deixou de ter em quem treinar e já não anda com o bombo tão afinado. O tio Negos é que continua a ser o maior aficionado do grupo. Mal eles começo, põe-se logo a dançar que aquilo é um consolo vê-lo. Só que a dança dá-le sede e, vai daí, ele mata-a com maduro tinto. A seguir volta a dançar, volta a dar-le a sede e ele volta a matá-la. E anda nisto, todo cuntente.
Quem não deve andar lá muito é a Micas Gorda, do talho. Tudo por causa do costerol. O sinhor doutor disse-le que precisava de exercício físico e vai daí, ela pegou no Quim sacristão e foram os dois fazer ginástica. Para o motel do Zé Brasileiro. Eu bem me parecia que o Quim andava a comprar fêveras a mais. Dizem que se fartaro de fazer alongamentos. O pior veio no fim. A furgoneta do sacristão não pegou e, para ajudar à missa, ainda tinha um pneu em baixo. O Zé Brasileiro chamou o reboque e quem estava de serviço era o home da Micas. Segue-se que, quando lá chegou e os viu, deu-les logo outra sessão de ginástica. À Micas foi de body combate e ao Quim pô-lo a fazer a espargata. Sem cuecas. Não te preocupes, Cessinho, que a furgoneta já está boa. Ero velas. A Micas e o Quim, esses é que não têm aparecido. Sabes que isto do exercício físico nem sempre faz bem à saúde.
Recebe beijos repenicados meus, de teu querido pai e restante família. Ficamos à espera de novas e outras.
Tua mãe que se assina,
Jovelina
PS: se ainda estiveres a ler bota atenção: onte mandei-te um garrafãozito de aguardente por correio. Caso engripes, bebe um litrinho ao levantar e outro ao deitar que vais ver que te passa. Se começares a dançar não te importes; é porque sais ao teu tio Negos.
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