quinta-feira, 15 de agosto de 2013

AI MÃEZINHA, QUE É SÓ GALOS



Querida Mãezinha,

Que esta missiva te vá repenicar de beijos, e bem assim ao paizinho e restante família, são os votos deste teu rebento, que de saudades rebenta.

Desta feita tenho uma boa nova e uma menos boa nova para te endossar. A boa é que logrei obter um emprego. A menos boa é que já me encontro desempregado. Com efeito, ingressei no serviço pós-venda duma empresa que comercializa um produto para aumentar, digamos, o orgão reprodutor masculino. Não calculas, mãezinha, a quantidade de pedidos. No fundo, são homens gananciosos que, em lugar de se contentarem com aquilo que a natureza lhes proporcionou, pretendem sempre mais e mais. Sucede, porém, que o produto comercializado não era bem aquilo que eles idealizavam. Tratava-se de uma lupa; lá aumentar, aumentava, mas não aumentava a contento. Assim, muitos foram os que se dirigiram ao serviço pós-venda, onde eu laborava, para manifestarem a sua insatisfação. Após ter recebido uma quantidade apreciável de lupas na cabeça, o que me provocou igual quantidade de erecções cranianas, vulgo galos, acabei por me desinteressar do exercício da profissão. Quero, no entanto que saibas, mãezinha, que a minha vontade de trabalhar não murchou, antes pelo contrário, continua a crescer. E sem lupa.
Aproveito para te informar que recebi o garrafãozinho de aguardente que tiveste a amabilidade de me remeter. Sucede que o vizinho de baixo, o Sr. Bezaina, que não desfazendo, é uma jóia, apareceu cá com uma constipação em elevado grau de gestação. Referiu-me que a maleita provinha de uma corrente de bar e pediu-me uma medicação eficaz para o ataque ao vírus. Avancei com um benuron, mas o paciente preferiu a aguardente. Tem cá vindo todos os dias tomar, digamos, o remédio mas, estranhamente, não lhe conheço melhoras. Por isso te peço, mãezinha, envia-me mais medicação, porque o pobre senhor ainda está muito atacado.

Por ora, por aqui me fico, ansiosamente expectando por novas.

Deste teu e vosso,
Abcesso Inocêncio Truncado

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

É JOVELINA, QUE SE ASSINA



Cessinho Filho,

As saudades que tomaro conta de nós foro tantas que até se nos incharo os dedos dos pés. O Xonas da farmácia diz que é da gente comer alheiras e mouras todos os dias, mas a mim ninguém me tira que é da tua falta. Fora os inchaços, aqui em Afanães, continuamos com a desenvoltura habitual que é, como quem diz, está tudo na mesma. Quem também tem sentido a tua falta é o nosso grupo de Zés Pereiras. Queixo-se, desde que foste embora, que o teu pai deixou de ter em quem treinar e já não anda com o bombo tão afinado. O tio Negos é que continua a ser o maior aficionado do grupo. Mal eles começo, põe-se logo a dançar que aquilo é um consolo vê-lo. Só que a dança dá-le sede e, vai daí, ele mata-a com maduro tinto. A seguir volta a dançar, volta a dar-le a sede e ele volta a matá-la. E anda nisto, todo cuntente.
Quem não deve andar lá muito é a Micas Gorda, do talho. Tudo por causa do costerol. O sinhor doutor disse-le que precisava de exercício físico e vai daí, ela pegou no Quim sacristão e foram os dois fazer ginástica. Para o motel do Zé Brasileiro. Eu bem me parecia que o Quim andava a comprar fêveras a mais. Dizem que se fartaro de fazer alongamentos. O pior veio no fim. A furgoneta do sacristão não pegou e, para ajudar à missa, ainda tinha um pneu em baixo. O Zé Brasileiro chamou o reboque e quem estava de serviço era o home da Micas. Segue-se que, quando lá chegou e os viu, deu-les logo outra sessão de ginástica. À Micas foi de body combate e ao Quim pô-lo a fazer a espargata. Sem cuecas. Não te preocupes, Cessinho, que a furgoneta já está boa. Ero velas. A Micas e o Quim, esses é que não têm aparecido. Sabes que isto do exercício físico nem sempre faz bem à saúde.

Recebe beijos repenicados meus, de teu querido pai e restante família. Ficamos à espera de novas e outras.

Tua mãe que se assina,
Jovelina

PS: se ainda estiveres a ler bota atenção: onte mandei-te um garrafãozito de aguardente por correio. Caso engripes, bebe um litrinho ao levantar e outro ao deitar que vais ver que te passa. Se começares a dançar não te importes; é porque sais ao teu tio Negos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

EU, ABCESSO, ME CONFESSO


Querida Mãezinha,

Que esta te vá encontrar e aos restantes entes queridos de saúdinha plena, são os votos deste que tanto vos estima. Tinhas razão, a vida aqui na cidade é deveras enriquecedora. Noto, porém, que as pessoas são um bocadinho distantes. Deve ser resultado da educação, com pouco contacto entre pais e filhos. Felizmente, não faltou contacto na minha educação. Sobretudo quando o paizinho me assentava com a maçeta do bombo. Todos os dias. Ainda bem que ele pertence ao grupo de Zés Pereiras de Afanães. Assim, eu tive uma educação esmerada e ele andava sempre com o bombo afinado. Mas, também há pessoas afáveis na cidade. Ainda ontem, dirigi-me a uma menina simpática que se encontrava numa esquina e questionei-a pelas horas. Ela, gentilmente, respondeu-me 35, duas horas. Sabes, mãezinha, aqui na cidade, dizem primeiro os minutos e só depois as horas. A menina era tão simpática que até me levou para o apartamento dela. Foi tão bom. Aspirei-lhe a casa toda, pus-lhe uma roupinha a corar e até lhe mudei os lençoizinhos da cama. Tudo ao som da música do " areias é um camelo " que trago sempre no meu Walk Man. Ela ainda quis que eu brincasse com ela, mas eu disse-lhe logo que já era crescidinho para brincadeiras. Respondi-lhe bem, não respondi, mãezinha? Ela amuou e disse-me uma frase que não posso reproduzir, mas que significa que, quando os conhecimentos sobre o contacto reprodutivo escasseiam, até a zona testicular cria obstáculos. Criancisses.
De resto, continuo à procura de emprego. A semana passada estive quase. Era um estágio muito jeitoso e remunerado. Comecei a discutir a remuneração com o dono da empresa e ele a querer subir e eu a baixar. Às tantas disse-lhe:
- Estimado senhor, a minha última oferta é de 400€ por mês e não lhe pago nem mais um cêntimo. Ele achou pouco, não aceitou, mas eu também não ofereci mais. Impus-me bem, não impus, mãezinha? Ele que vá à missa, não é?
Fico-me por aqui com votos de boa continuação e aguardo, com o coraçãozinho apertado, que me dês boas novas de todos vós e de Afanães.

Deste teu e vosso,

Abcesso Inocêncio Truncado

sábado, 3 de agosto de 2013

AI A QUEDA


- Nome?
- Rui
- Idade?
- Velhos são os trapos
- Profissão
- É consoante
- Sabe utilizar bombas?
- Sei fugir delas
- Já participou em algum atentado?
- Tenho tentado
- Caro senhor, lamento mas o seu curriculum é insuficiente
- Desculpe, eu estive envolvido em milhares de acções
- Quais?
- Acções de efeito triplo
- Ainda assim, nunca teve ligações a nenhum grupo terrorista
- Não? E se lhe disser que estive na SLN e no BPN?
- Caro senhor, já podia ter dito. Seja bem vindo ao nosso grupo. Vamos já incluí-lo no nosso próximo golpe
- Qual é?
- Vamos rebentar com negócios no estrangeiro.

DE MARCHA A TRÁS


- Olha-me aquele VM
- Ganda cena!
- E o AUDI que bai atrás colado?
- Altamente
- Ei pá, e o mercedolas
- Quem mo dera
- Tamvém a mim
- Desculpem, vocês estão a ver os carros passar?
- Claro. Por isso é que cumpramos este apartamento
- E gostam?
- É do milhor
- Porquê?
- Porque bibiamos numa casa que só tinha bistas pa dois pinheiros e pa um carbalho
- E então?
- Um gajo ficaba ali especado a olhar pós pinheiros e pó carbalho
- Feito estúpido
- E depois?
- Mandamos os pinheiros pó carbalho e mudamos
- Agora sim, é sempre a vumvar
- E o barulho?
- Num é varulho, é adrenalina
- E o fumo?
- Até abre o apetite, pá...
- Ora, bamos lá inxer os pulmões de ar...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

MUIDO À FRENDE...


Beus abigos,

Adé gue envim fez-se justiza. Andei durande anos a beber, digo, a dezer ca pinga é um facdor brodutivo e ninguém agredidou. Muidos foram os gue me guizeram zecar a goela mas, finalmente, o tribunal deu-me rezão. Acordou que " com álcool, o travalhador pode esguecer as agruras da bida e empenhar-se muido mais". E ainda por cima foi o Tribunal da relazão. Num desfazendo, eu denho boa relazão gom doda a gende, mas com os juízes da relazão nem se vala. Gende bacana gue, dal gomo eu, gosda de esguecer as agruras da bida. Ainda agui há atrazado, fomos todos à adega do Quim Palhede e gomeçamos logo a esguecê-las. Ao fim de algum dempo, já não nos lembravamos de ninhuma. Foi endão gue, um dos juízes, pegou no mardelo e gridou: - Cazo enzerrado! Zó gue bateu com danda forza, ca cabeza do mardelo descolou e apanhou o Quim em xeio na moleirinha. Já lá vão mais de guinze dias e ele ainda anda esguecidinho. Das agruras e do resto. E dambém é berdade cu alcool faz-nos empenhar muido mais. Ainda a zemana pazada, o Brujolas foi pôr o relógio no brego e esta zemana bassei por lá eu para les embrestar uma boltinha em ouro. É que a bringar, a bringar, a bida tá dificil e há muido para esguecer. Tenho tinto, aliás, tenho dito.

Saudazões binhadeiras deste vozo,

Manel Bezaina

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

COM MANHA ELEITORAL


Vai Sapião concorrer
À junta de freguesia
E a todos prometer
Muita obra e alegria

Mas primeiro há que criar
Uma imagem de vitória
De quem, para além de ganhar
Quer também ficar na História

Começa pelo cabelo
Pede a bela risca ao lado
Mas como só tem um pêlo
Deixa o barbeiro entalado

O pobre homem magicou
Fez-lhe uma puxada à nuca
Vendo que não resultou
Enfiou-lhe uma peruca

Sapião todo contente
Rasga um sorriso de artista
Mas um dente podre à frente
Manda-o logo para o dentista

Que ataca de broca em riste
Num fulgor endiabrado
Sai Sapião muito triste
Mas de riso branqueado

Segue-se o alfaiate
Para a prova da jaleca
Enfiam-lhe um terno mate
A condizer com a cueca

Chega o momento esperado
A foto para a campanha
Sapião engravatado
Está pronto para a façanha

Franze o sobrolho a preceito
Compõe um olhar de bravo
Respira fundo, enche o peito
Rebenta as calças no rabo

O fotógrafo, que é famoso
Não vai em poses de estado
Quer Sapião bem charmoso
Mesmo assim, com o cu rasgado

Pede-lhe então que sorria
Em estilo mona lisa
Para lhe dar mais energia
Põe-no em mangas de camisa

Mas eis que, de repente, tem
Uma ideia genial
E assegura que ninguém
Irá ter ideia igual

Sapião segue o guru
Faz tudo como ele diz
Tira a foto em tronco nu
Para condizer com o país

E assim meio despido
Entrou nas bocas da gente
Para uns é doido varrido
Para outros está insolvente.