sexta-feira, 19 de abril de 2013

CÃOVERSAS II



 - Ó costa, o que é que se comemora no 25 de Abril?
- A revolução dos cravos
- Tens a certeza?
- Tenho cão, porquê?
- Com tanta gente a sacar?
- Que é que tem?
- Devia era assinalar-se a revolução dos cravas


- Ó costa, tenho andado a pensar sobre a liberdade
- E a que conclusão chegaste, cão?
- Tou preocupado
- Porquê?
- Sinto falta de liberdade, costa
- Mas eu deixo-te andar à solta, cão
- Não estou a falar de mim
- Então, de quem estás a falar?
- De ti. Não há maneira de te livrares da trela que te puseram, costa


- Ó cão
- Sim, costa
- O governo diz que isto está cada vez melhor
- Custa não custa, costa?
- Custa o quê, cão?
- O que estás a sentir
- O que é que eu estou a sentir?
- O mesmo que eu, quando me atiras o osso de plástico


- Ó cão
- Diz, costa
- És um felizardo
- Porquê?
- Não pagas impostos
- E depois?
- Não tens de trabalhar para comer
- E que mais?
- Não tens a casota hipotecada
- Até para ser cão é preciso ter sorte, costa
- Pois, mas eu é que me quilho
- Porquê?
- Tenho uma vida de cão


- Ó cão
- ...............
- Ó CÃO!
- ...............
- Ó CÃÃÃÃÃOOO!
- Não grites, costa, que eu ouço bem
- Como é que ouves bem se tavas a dormir!
- Não tava nada, costa
- Então?
- Tava em reflexão presidencial


- E ofereces flores, costa
- Pois ofereço, cão
- E ofereces jantares e anéis
- E depois?
- Ainda tens de a levar ao colo pó quarto
- E depois?
- E também levas o barry white
- Claro, para compor o ambiente
- É muito, costa
- Sabes o que te digo, cão?
- Sim, costa
- Vocês, os cães, têm insensibilidade romântica
- Não, temos é poder de síntese


- Ó costa, olhó um polícia!
- Não pode ser
- E é dos meus
- Onde?
- À tua frente, não pises

terça-feira, 16 de abril de 2013

CÃOVERSAS


- Ó costa
- Diz cão
- Por que é que não me puseste nome
- Que nome querias tu, cão?
- Um nome sonante
- Qual?
- Gengis
- Gengis é sonante?
- Gengis cão

- Que tás a fazer, cão?
- Tou a ouvir a renascença
- E que diz ela?
- Que quem se arrepende dos pecados é perdoado
- Tá certo
- Ó costa
- Sim, cão
- Tou arrependido
- De quê?
- Dos meus pecados
- Fazes bem, cão
- Portanto, tou perdoado
- Pois tás
- Que alívio, costa
- Ainda bem
- Agora que fui perdoado, posso voltar a pecar
- Tu és um cão sábio
- Não, sou um CÃOtólico

- Ó costa
- Diz, cão
- Sinto-me inconstitucional
- Ó cão, eu bem te avisei para não comeres tanto

- Ó costa
- Sim, cão
- Ando com pesadelos
- E sonhas com quê?
- Sonho com um país cheio de boas casotas, bons ossos, boas árvores
- Mas isso não são pesadelos, cão
- Pois não. Os pesadelos começam quando acordo

- Ó costa, olhó target!
- Olhó quê?
- Lá está, não tens background, falta-te o staff e, claro, ficas no dead-line
- Ó cão, sentes-te bem?
- Ó costa, quem não usa estrangeirismos está out
- Ai sim?
- Of course
- E quem te disse que eu não sei estrangeirismos?
- Diz-me um
- Fuck you!

sábado, 13 de abril de 2013

PAPA PAPÃO


- Olha que o Papão vem e leva-te! As palavras da mãe afogavam-no no mar de sopa que tinha pela frente e já nem o medo o impelia a lutar. Sabia que não conseguiria e não conseguiu. Foi mandado de castigo para o quarto e sentiu que aquela seria a última noite. Aninhou-se debaixo da cama, apertou o action man entre as mãos suadas e esperou pelo fim. O Papão não veio. No dia seguinte, animado pela bendita ausência, arriscou de novo. O castigo foi o mesmo, mas o Papão não apareceu. Da terceira vez, nem esperou pela ordem. Dirigiu-se de imediato para o quarto com um sorriso confiante. O Papão não veio. Saboreou, vitorioso, a entrada na idade adulta. O que nunca chegou a saber é que o Papão não veio porque, também ele, tinha recusado comer a sopa. E, claro, fora levado pelo Homem do Saco.

terça-feira, 9 de abril de 2013

ENCOSTO NACIONAL



- Eu bem te disse
- Disseste-me o quê?
- Que devíamos ter privatizado o TC
- Pois devíamos, agora onde vamos sacar tanto dinheiro?
- E se pedíssemos emprestado à galilei?
- À quem?
- À SLN do oliveira e costa. Desde que mudou de nome, dizem que está a ganhar balúrdios
- Esse não, que só gosta de distribuir prejuízos
- Então, por que não pedimos ao cabo-verdiano?
- Ao quem?
- Ao dias loureiro
- Esse não, que só é amigo do presidente
- Podíamos dar um toque ao mexia. Olha que o gajo tem um rico pé de meia
- Não te metas em chinezisses
- E se falássemos ao belmiro?
- Vê lá se queres acabar a receber menos do que o salário mínimo
- Nesse caso, só nos resta continuar a sacá-lo aos mesmos
- Lá terá que ser
- Entretanto vai tratando da vida
- Qual vida?
- Da nossa, para quando formos à vida
- Lá terá que ser
- Pronto, vamos ao discurso: - Portugueses, o Governo enfrentará lado a lado convosco todas as dificuldades. Agirei com todas as minhas forças em prol do interesse nacional e...

sábado, 6 de abril de 2013

AUSÊNCIA DE URGÊNCIA


- Desculpe interromper-lhe o fim de semana, mas...
- Por acaso, foi aborrecido
- Alguma coisa importante, presumo
- Estava a ganhar no jogo com que mais me identifico
- Qual, senhor presidente?
- Matrecos
- Peço muita desculpa, mas é de facto importante
- Então, o que me quer?
- Trago más novas, senhor presidente
- Não me diga que me vai cortar mais a reforma?
- Bem pelo contrário, senhor presidente
- Vai dizer-me que o dias loureiro foi preso?
- Também não, senhor presidente
- Então qual é o problema?
- O TC chumbou o OE
- Ai chumbou?
- É verdade,senhor presidente
- Isso é mau
- O que fazer, senhor presidente?
- Diga ao OE para estudar muito
- Para quê, senhor presidente?
- Para voltar a fazer o exame na segunda época
- O exame?
- Se o OE estudar muito não chumba de certeza
- Ó senhor presidente, não está a perceb...
- E já agora, diga-me, quem é esse TC?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

RESVALA O RELVAS



Por ele tinha continuado, até porque estava a gostar. Infelizmente sofria de ejaculação precoce. Maldito Org asno!


- Ó mãe, ó mãe, aquele menino caiu abaixo do governo!
- Ó filho, qual governo?


- Caíste e estás em forma?
- Ainda estou melhor
- Melhor do que em forma?
- Claro. Estou em tecnoforma


- Ó homem, não me entres em casa com os sapatos nesse estado!
- Que têm os sapatos?
- Então não vês que estão cheios de relvas?
- Ó diabo, antes a merda do cão!
- Qual cão?
- O cão do miguel...


Afinal, parece que o curso não é válido, mas só se descobriu agora.
Uma no crato e outra na licenciatura...


segunda-feira, 1 de abril de 2013

EM ABRIL, MILAGRES MIL




Nem queria acreditar. Estava ali, em cima de uma árvore, vestido de noiva. O baile de máscaras explicava o vestido. Uma estúpida necessidade fisiológica mais o arrepiante olhar de um animal que lhe surgiu de repente, fizeram o resto. Agora, estava ali, na escuridão da noite, com o rosnar da besta a arrancar-lhe o coração do peito. Rezou durante horas por um milagre que o salvasse ou ao menos o deixasse respirar. O raiar da aurora trouxe finalmente um silêncio que pensava já não existir e mostrou-lhe que o animal se fora. Sentiu um alívio celestial. Relaxado, abriu os braços e espreguiçou-se. Naquele gesto, o vestido de noiva foi trespassado pelos raios de sol e exibiu uma beleza divina. De repente, um ruído. Aterrado, olhou para baixo e viu três crianças que o fixavam incrédulas. Desceu como pôde mas, quando chegou ao chão, já tinham desaparecido. Não perdeu mais tempo. Saiu dali a correr que já chegava de aparições. As crianças, essas falaram e toda a gente ficou a saber. Ainda hoje se conta o episódio embora as datas nem sempre coincidam. Uns dizem que foi em Maio. Outros em Abril. E logo no primeiro dia.