terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

FOGO MAU


Era uma vez um lobo que vivia na floresta. Um dia veio um fogo e a floresta ardeu. Foi preciso voltar ao início da história. Era uma vez um lobo que vivia. A seguir veio a reflorestação mas só plantaram eucaliptos. Desagradado disse o lobo: - Mau! E voltou-se ao início da história. Era uma vez um lobo que vivia num eucaliptal. Nesse Inverno veio outro fogo e o eucaliptal ardeu. Zangado disse o lobo: - Mau, Mau! A seguir tornaram os eucaliptos e a história preparou-se para começar. Nessa noite veio mais um fogo e o eucalipatal ardeu. Revoltado o lobo tentou organizar uma manifestação da alcateia, mas de tanto lhe vestirem a pele, os outros lobos já não passavam de cordeiros. Acusaram-no de ser mau. Cansado, o lobo partiu.
No dia seguinte apareceu o capuchinho vermelho mas já não havia lobo. Foi mau porque a história ardeu.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

SÃO TANAZ


- Não aguento mais!
- Compreendo...
- Deveria ser eu a sevíciá-los, não o contrário
- Com efeito...
- Já não me bastava o hitler constantemente pegado com o stalin, o salazar e o franco a desligarem o gás para me constiparem, o ceausescu a exigir luxos, o pinochet a querer tomar o meu lugar e agora em menos de nada chegam o saddam, o kadafi e o querido líder.
- A sua vida é, de facto, um inferno
- Pior, é uma cruz
- Percebo o seu desespero mas deixe-me animá-lo
- Como?
- O mundo está a substituir as ditaduras por democracias e já restam poucos ditadores políticos
- A sério? Quer dizer que não vou ter mais carradas deles a queimarem-me a paciência?
- Fique descansado.
Pouco depois o diabo abandonou o consultório convencido que aquele homem era uma boa alma. O psiquiatra ficou a vê-lo desaparecer no fundo do corredor enquanto pensava que os ditadores políticos tinham sido substituídos mas pelos ditadores do dinheiro. Deus haveria de lhe perdoar aquela mentira.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MENSAGEM PATRIÓTICA


Portugueses, portuguesas, homens e mulheres de outros países que vivem em Portugal, gente reprodutora em geral:
Estou sumamente preocupado e digo-vos porquê; não há criação. Ninguém me tira da ideia que a culpa é dessas novas tecnologias que por aí andam. Não o digo por ter sido através delas que catrapiscaram os meus mails, não. O que acontece é que abris os PC´s, bateis nas teclas para falardes uns com os outros, tardais na cama e, claro, a natalidade é que paga. Peço-vos pois com a frontalidade que a situação impõe; em lugar de vos meterdes em manifestações ruidosas e impeditivas das minhas deslocações, canalizai as energias para a tão necessária reprodução. Dai quecas, brelaitadas no gaiolo, cambalhotas no palheiro, como lhe queirais chamar, mas pela vossa saúdinha e pelo futuro da pátria fecundai. Caso contrário não tarda não há quem pague impostos e sem impostos não há reformas por pequenas que sejam ou ainda que não cubram as despesas. Compenetrai-vos, dai o corpo mesmo que sem a alma e já agora dai uma por mim que eu não posso. Da última vez que tentei a única coisa que consegui foi pôr uma vaca a rir.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TROIKA, TROIKA, COELHO



- Está iniciada a fase de perguntas ao senhor 1º ministro. Senhores jornalistas, façam o favor
- Senhor 1º ministro qual é a sua posição sexual favorita?
- Senhor jornalista, essa não é uma pergunta própria para se colocar ao senhor 1º ministro
- Muito bem, senhor 1º. ministro gosta de preliminares ou é adepto do directo ao assunto?
- Senhor jornalista, há que ter pudor na coloc...
- Nas suas fantasias o senhor 1º ministro costuma vestir-se de super homem ou inclina-se mais para o capitão américa?
- Senhor jornalista está a sair totalmente fora do...
- O senhor primeiro ministro gosta de sexo seguro, como o ps, ou é mais dado à liberdade criativa?
- Senhor jornalista exijo respei...
- Quando o senhor 1º ministro atinge o climax ainda põe a mão no ar e grita jsd, jsd?
- Ó senhor jornalista, vou mandar calá...
- Só mais uma. Quanto tempo é que o senhor 1º. ministro aguenta com a seta para cima?
- Basta. Por que insiste nesse tipo de perguntas?
- Simples. Se o senhor 1º ministro quer comer o povo ao menos que o povo saiba como vai ser comido.
- Nem mais uma palavra. Expulsem o provocador!

Expulsaram-no. O Homem de baixa estatura, de barba sem bigode e de chapéu de abas largas regressou à sua sex shop natal. Não sem antes dizer por entre um sorriso libidinoso: - I'll be back.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

PASSOS PERDIDO...


- Tu acreditas?
- Não
- Mas é preciso convencê-los
- Que a austeridade é indispensável?
- Não
- Que as pensões mínimas têm de ser congeladas?
- Não
- Que é preciso aumentar os despedimentos?
- Já te disse que não é assim
- Ah, pois, que é preciso democratizar a economia?
- Claro. Também não
- Então de que é preciso convencê-los?
- De que estavas a brincar
- A brincar?
- Quando os mandaste emigrar
- Pois. E o que é que faço?
- Pões a cara que te ensinei
- A de menino do coro de santo amaro de oeiras?
- Não
- A do sorriso epilético que me ensinou o basílio horta?
- Não
- A de africano albino?
- Também não
- Então qual, ângelo?
- A que melhor sabes fazer, porra!
- Não estou a perceber
- Essa toda. A de inteligente que não percebe um corno do que se passa
- Ah, está bem. Vou já começar a franzir o sobrolho.
- Quando estiveres pronto diz para começarmos a gravar.

domingo, 25 de dezembro de 2011

BRANCO DE NEVE


Curioso. Passara uma vida no banco e agora estava ali sentado. No banco. O banco que tanto lhe tirou dera-lhe um banco. Andou preso à mesquinhez do dinheiro como um animal à roda da nora. Restou-lhe o sonho. E sonhou. De repente tinha à sua frente um estádio a fervilhar de emoção e ele ali no banco pronto para entrar. Depois vieram os filmes que não viu, os livros que não leu, os artistas que nem sabia existirem. Sentado naquele banco fez viagens que não imaginou, abraçou gente que nunca conheceu, viveu momentos só seus. Sonhou muito. No banco que era dele. Que era ele. Por fim adormeceu. Uns tímidos flocos de neve trazidos por aquele dia de Natal acordaram-no suavemente. Inclinou a cabeça para trás, fechou de novo os olhos e sorriu para o céu.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O DIA MAIS LONGO


Fala-vos o cabo meliciano matos no teatro das operações em Portugal. Por cá as coisas vão difíceis. O inimigo não pára de atacar mas não nos dá trabalho, tira-nos. Os bombardeamentos são constantes e tão violentos que é buracos por todo o lado. Chego a pensar que devem ser índios porque só querem tirar-nos a pele. Estão emboscados em toda a parte e nós cada vez com menos meios. Como se não bastasse ainda fazem guerra psicológica; andam a gritar pelo mato para que desertemos. É um combate desigual onde não há justiça. Nem saúde, nem educação. Nem futuro. Mas continuamos a resistir. É preciso. Comam uma rabanada por mim e até ao meu regresso.