sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

MASSAGEM DE NATAL


Sem esconder a minha preferência pela Páscoa, altura do ano mais dada a sacríficios e a coelhos, não posso deixar de vos desejar que me desejem um bom natal, uma vez que o contrário é impossível. Aproveito para vos pedir que continuem a reforçar diligentemente as vossas poupanças que recolherei com sentido patriótico a muito curto prazo, mediante a introdução das medidas fiscais adequadas.

Aos que aceitaram o meu recente conselho desejo uma boa viagem

MASSAGEM DE NATAL


Um dia uma cigana, ao ler-me a sina, disse-me que iria subir alto e fazer macacadas. Acreditei e consegui. Subi a um coqueiro e fui presidente de todos vós. Partilho convosco esta experiência para que, tal como eu, também vós possais acreditar em dias melhores. Conheço bem os problemas até porque fui eu que ajudei a criá-los. Sei bem das dificuldades embora não as sinta. Estou plenamente convicto que juntos conseguiremos devolver ao país os subsídios a fundo perdido, as auto estradas de borla, os jeeps com limpa pára brisas nos faróis, os condomínios fechados com  vídeo porteiro a cores, enfim tudo aquilo que consubstancia o verdadeiro progresso. Tenho para mim que, com o vosso esforço, eu e a minha Maria recolocaremos o país ao pelotão da frente. Até lá comam bolo-rei do barato sem abrir a boca e sobretudo riam, riam muito. Se as vacas das ilhas o fazem vós também sereis capazes.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CHRISTMAS OU CRISES TÃO MÁS?


- Mulher, não é meu!
- Digo-te que é
- Eu digo-te que não é
- Então, é obra do divino espírito santo?
- Não faças de mim camelo
- Impossível. Um camelo tem duas bossas e tu tens uma carpintaria
- Por isso sei como usar o serrote
- E o formão
- Mentes mulher, confessa!
- Fala baixo que ele está a dormir
- Só um milagre o acordaria. Quem é o pai?
- Ok, pronto, não és tu
- Quem é?
- Também não sei. Eram dezassete
- Dezassete? Que dizes megera?
- Foi uma excursão de estrangeiros que chegou
- E depois?
- Depois deixaram-me a ver tantas estrelas que até fiquei eurada
- Pois bem podes gabar-te de teres conseguido
- O quê?
- Uma merda única.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CAI NEVE NA CABANA


- Pois é como te  digo
- Não me dês música
- A sério, arrombaram o barraco
- O que fica nas dunas?
- Sim, junto aos canaviais
- E depois?
- Depois entraram e começaram logo na macacada
- Muito tempo?
- Eh pá, até o rei fazer anos
- Isso é que foi um grande, grande amor
- Ai ninas. Ele até perdeu o capachinho
- E ela, sabes como se chamava?
- Anita
- E que tal?
- Não era bonita mas acreditava que a noite caía
- Desculpa?
- Coisas dela. Não interessa
- E no fim?
- Ela disse addio, adieu
- E ele?
- Aufwiedersehen, goodbye
- Muito me cantas

Quando as gaivotas se calaram voltou a ouvir-se o refrão: só o vento e o mar e as gaivotas falam desse amor.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

NATAL BOM DE OSSO




- Gramo à brava o Natal
- Porquê?
- Por causa da solidariedade
- Quem é essa?
- É para ajudar os pobrezinhos
- Ah, pois. Eu também gramo o Natal
- Porquê?
- Para ajudar os carenciados
- Não é o mesmo que os pobrezinhos?
- Não. Carenciados são os pobrezinhos com cárie
- Claro. É bom ajudar, não é?
- É. Faz-me ver como sou bondoso
- Tenho tanta pena deles
- Também eu
- Ainda há dias comprei um bacalhau para lhes oferecer
- Onde?
- No incontinente. Tem daquele amarelo, fininho, em promoção
- Também compraste para ti?
- Comprei. Do grande que sai às lascas
- Desse gosto
- E comprei metade de um bolo rei seco para eles
- E que mais?
- Comprei cavacos e coelhos de xicolate
- Gastaste um balúrdio
- Não. Foi tudo nos chineses
- És fino
- E tu, o que vais dar aos carenciados?
- Guronsan
- Guronsan?
- Como não estão habituados a comer, ao enfardarem o que lhes vais dar vão quilhar o fígado. É limpinho.

domingo, 18 de dezembro de 2011

MARAVILHOSO MUNDO ANIMAL


Deitava-se com as galinhas, era forte como um touro, trabalhava como um cão. Foi comido por uma mula que lhe ficou com a palha

O cão diz que é amigo fiel. O bacalhau diz que é fiel amigo. O gato diz que eles são é camelos

Cansado de tanta traição o boi passou-se. Estava farto de viver com uma vaca

Era um rato com graves problemas de visão. Sempre que via queijo chamava-lhe um figo

Os touros são muito infiéis. Gostam de por os cornos

Quando a zebra pisou involuntariamente a bosta deixada pelo felino desabafou irritada: - Ó Chita!

Farto de ver a vida a andar para trás o caranguejo enterrou a cabeça na areia. A avestruz, tenaz, acusou-o de ser um macaco de imitação

O elefante sentou-se em cima da formiga. Foi a última vez que esta lhe deu colo

- Tudo por causa de uma vida de excessos. Disse a cigarra para o lado no funeral da formiga

O milhafre disse que estava ferido na asa mas todos sabiam que o que ele tinha era um grão na asa

Foi o primeiro a chegar à rede que o prendeu. Era um carapau de corrida

Disse cobras e lagartos mas caiu que nem um pato e comeu gato por lebre. Não valia um caracol

Naquele dia o zangão estava com a mosca. A abelha não lhe perdoou e pô-lo fora de casa

POR MORRER UMA ANDORINHA NÃO ACABA O NATAL


É com o coração anodizado pela obstipação afectiva que volto à lustrosa e sempre inclemente presença de Vocênssias. Perante Vós me curvo prostático por tão trespassante e inócua separação, mas creiam que o despojo da culpa não me imiscui, deveras. Com defeito, a responsabilidade de tão punitiva ausência descende precípua das concomitantes reflexões em que me internei. Iniciei por uma reflexão à rectaguarda seguida de mortal encarpado à frente e de nova reflexão em decúbito frontal, embora de lado. Não mais estanquei de reflectir o que, induzindo-me as mais robustas e proeminentes artroses na zona joelheira, me alcandorou a um encavalitante pensamento; o natal não existe. Ou, se existe, fecunda-se em concepção genuinamente artificiosa. Façam Vocênssias o obstáculo de acompanhar a hermenêutica do meu raciocínio; naqueles idos tempos de outrora onde raiava a aurora ainda não se arrendavam abdómens, vulgo, barrigas. Ora assim, como poderia a senhora ter electrificado, ou como soi dizer-se, ter dado à luz sem mácula? Ou então ver-me-ei esforçado a auscultar a protuberância hipotética do menino resultar de um composto  siliconesco ou até mesmo de um impregnado plástico de origem asiática. Em qualquer dos casos não se inculca a inércia de um nascimento apoteótico de importância realciva nesta época. Quanto muito petrificará para a história como a época do ano em que as andorinhas vêm fazer os seus ninhos e que não findará se uma dessas aves pernaltas se acolitar ao criativo. Apelo por conseguinte a Vocênssias para que não sejam dromedários, escusem-me a prosaica, porque outrossim ainda vos expectam com uma troika de reis magos em cima do excelso lombo e esses são cá uns presentes que nem a Vocênssias conto. E pronto. Resta-me despedir Vocênssias a partir do hotel do Conde onde me mantenho implantado em regime de pensão completa e medicamentosa. Desejo-vos a melhor sintonia com o que vos for de proveito e tenham absorta cautela com esses, digamos, coelhos que por aí andam disfarçados de meninos salvadores dos homens.

Com os despeitos da minha mais jactante incontinência.

Amaral Fecha Mal