segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

NATAL BOM DE OSSO




- Gramo à brava o Natal
- Porquê?
- Por causa da solidariedade
- Quem é essa?
- É para ajudar os pobrezinhos
- Ah, pois. Eu também gramo o Natal
- Porquê?
- Para ajudar os carenciados
- Não é o mesmo que os pobrezinhos?
- Não. Carenciados são os pobrezinhos com cárie
- Claro. É bom ajudar, não é?
- É. Faz-me ver como sou bondoso
- Tenho tanta pena deles
- Também eu
- Ainda há dias comprei um bacalhau para lhes oferecer
- Onde?
- No incontinente. Tem daquele amarelo, fininho, em promoção
- Também compraste para ti?
- Comprei. Do grande que sai às lascas
- Desse gosto
- E comprei metade de um bolo rei seco para eles
- E que mais?
- Comprei cavacos e coelhos de xicolate
- Gastaste um balúrdio
- Não. Foi tudo nos chineses
- És fino
- E tu, o que vais dar aos carenciados?
- Guronsan
- Guronsan?
- Como não estão habituados a comer, ao enfardarem o que lhes vais dar vão quilhar o fígado. É limpinho.

domingo, 18 de dezembro de 2011

MARAVILHOSO MUNDO ANIMAL


Deitava-se com as galinhas, era forte como um touro, trabalhava como um cão. Foi comido por uma mula que lhe ficou com a palha

O cão diz que é amigo fiel. O bacalhau diz que é fiel amigo. O gato diz que eles são é camelos

Cansado de tanta traição o boi passou-se. Estava farto de viver com uma vaca

Era um rato com graves problemas de visão. Sempre que via queijo chamava-lhe um figo

Os touros são muito infiéis. Gostam de por os cornos

Quando a zebra pisou involuntariamente a bosta deixada pelo felino desabafou irritada: - Ó Chita!

Farto de ver a vida a andar para trás o caranguejo enterrou a cabeça na areia. A avestruz, tenaz, acusou-o de ser um macaco de imitação

O elefante sentou-se em cima da formiga. Foi a última vez que esta lhe deu colo

- Tudo por causa de uma vida de excessos. Disse a cigarra para o lado no funeral da formiga

O milhafre disse que estava ferido na asa mas todos sabiam que o que ele tinha era um grão na asa

Foi o primeiro a chegar à rede que o prendeu. Era um carapau de corrida

Disse cobras e lagartos mas caiu que nem um pato e comeu gato por lebre. Não valia um caracol

Naquele dia o zangão estava com a mosca. A abelha não lhe perdoou e pô-lo fora de casa

POR MORRER UMA ANDORINHA NÃO ACABA O NATAL


É com o coração anodizado pela obstipação afectiva que volto à lustrosa e sempre inclemente presença de Vocênssias. Perante Vós me curvo prostático por tão trespassante e inócua separação, mas creiam que o despojo da culpa não me imiscui, deveras. Com defeito, a responsabilidade de tão punitiva ausência descende precípua das concomitantes reflexões em que me internei. Iniciei por uma reflexão à rectaguarda seguida de mortal encarpado à frente e de nova reflexão em decúbito frontal, embora de lado. Não mais estanquei de reflectir o que, induzindo-me as mais robustas e proeminentes artroses na zona joelheira, me alcandorou a um encavalitante pensamento; o natal não existe. Ou, se existe, fecunda-se em concepção genuinamente artificiosa. Façam Vocênssias o obstáculo de acompanhar a hermenêutica do meu raciocínio; naqueles idos tempos de outrora onde raiava a aurora ainda não se arrendavam abdómens, vulgo, barrigas. Ora assim, como poderia a senhora ter electrificado, ou como soi dizer-se, ter dado à luz sem mácula? Ou então ver-me-ei esforçado a auscultar a protuberância hipotética do menino resultar de um composto  siliconesco ou até mesmo de um impregnado plástico de origem asiática. Em qualquer dos casos não se inculca a inércia de um nascimento apoteótico de importância realciva nesta época. Quanto muito petrificará para a história como a época do ano em que as andorinhas vêm fazer os seus ninhos e que não findará se uma dessas aves pernaltas se acolitar ao criativo. Apelo por conseguinte a Vocênssias para que não sejam dromedários, escusem-me a prosaica, porque outrossim ainda vos expectam com uma troika de reis magos em cima do excelso lombo e esses são cá uns presentes que nem a Vocênssias conto. E pronto. Resta-me despedir Vocênssias a partir do hotel do Conde onde me mantenho implantado em regime de pensão completa e medicamentosa. Desejo-vos a melhor sintonia com o que vos for de proveito e tenham absorta cautela com esses, digamos, coelhos que por aí andam disfarçados de meninos salvadores dos homens.

Com os despeitos da minha mais jactante incontinência.

Amaral Fecha Mal

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

SE FUGIR NÃO BEBA


Fugia de um fim anunciado. Os tempos corriam ameaçadores. Não o preocupava o sub prime ou a desvalorização da moeda, as dívidas soberanas ou os ratings. Não era essa a sua crise. Fugia da fome. E das sombras e dos gestos e das vozes. Ouvira histórias de erros fatais. Vivia aterrorizado pela angústia de os repetir. Fugia cansado de fugir sem perceber porque fugia. Fugia por um caminho cada vez mais longo por lhe parecer sem saída. Sentia fugir para o fim. Saturado, entrou na primeira tasca que encontrou e bebeu. Bebeu para fugir. Bebeu muito. Embebedou-se. Foi o fim do peru.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A TRÊS QUARTOS


Chegou primeiro, não parou um segundo, subiu ao terceiro e perdeu os três no quarto

Apesar de quatro, os mosqueteiros eram três. Andava a recibos verdes, o quarto

O terceiro estava aviado. Foi aí que a prostituta gritou: - venha o quarto que estou de quatro

Desesperados que estavam, os três foram ao quarto. De banho.

Apesar dos quatro lados continuava a dizer que era um Triângulo. Ele há cada quadrado

Os três lobisomens estavam prestes a entrar em acção. Era quarto crescente

- Binde que o pudim abade de priscos tá na mesa. Chamou a mãe. Só um dos pastorinhos ouviu. Resultado: três foram videntes e o quarto teve de esperar que se fizesse o filme.

Era a terceira vez que pagava o motel. Amor a quarto obrigas

Dos quatro reis magos só três chegaram a Belém. O quarto deixou-se guiar por uma estrela porno.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

NATAL DOS POBREZINHOS


Tinha 50 anos e as pernas trémulas. O choque trespassara-o de um golpe e só o instinto o mantinha de pé. Finalmente percebia tudo. Pediu a capa do super homem saiu-lhe um pijama de flanela, pediu emprego veio uma carga de trabalhos, pediu casa restou-lhe um quarto, pediu amor chegou-lhe a traição, pediu o segredo dos deuses, só para os deuses foi segredo. O pai natal não existia. Toda uma vida a escrever cartas para o fundo de uma gaveta dos correios. Toda uma vida enganado. Por tantos. Convocou forças, escondeu fraquezas, inspirou fundo e decidiu: - A partir de hoje nunca mais como a sopa. E que me venham com a história do homem do saco que eu digo-lhes como é.

domingo, 11 de dezembro de 2011

NA TAL ESPERA...


Não era rei mas ia nu. Procurou um manto, disseram-lhe para esperar, para ter paciência. Veio o Verão e ele perguntou ao Sol e às estrelas quando se vestiria. Pediram-lhe mais paciência. Uma virtude. Veio o Inverno e ele perguntou à chuva e ao vento quando se cobriria. Não houve resposta. A seguir veio o gelo e ele gelou no sítio onde lhe pediram paciência. Um manto de neve finalmente cobriu-o. No dia seguinte foi Natal. Uns miúdos acharam-lhe graça e espetaram-lhe uma cenoura a fazer de nariz. Paciência.